sábado, 25 de junho de 2016

A MINHA GLICÍNIA FLORIU DUAS VEZES


Estou triste.
Não gosto de ver desunião na família. Quem conhece a história da Europa sabe que os seus povos pertencem todos à mesma família. Os minhotos descendem dos suevos que se passeavam pelos pântanos de Berlim, e os ingleses são tão alemães ou tão dinamarqueses como eram os saxões e os normandos. Por muito boas razões de queixa que tivessem, o seu voto negativo deve-se à xenofobia e ao chauvinismo. Não foi the Great Britain quem ganhou, mas the Little Britain. Sair da Europa é uma arma que se tem, mas não se usa. Passa-se às gerações mais novas como uma jóia de família. Ficar não influenciava muito as gerações mais velhas, sair prejudicou as gerações mais novas que queriam ficar. Uma atitude, para mim, incompreensível.
Por alguma razão que desconheço a minha glicínia floriu de novo, pela segunda vez este ano. Espero que seja um bom presságio. Pelo menos convence-me cada vez mais a seguir Cândido de Voltaire, eu que tanto tenho de Pangloss, acreditando ser este o melhor dos mundos possíveis. Vou dedicar-me ao meu jardim. Porque, cela est bien dit, mais il faut cultiver notre jardin, diz Cândido.
Quando a minha neta nascer poderá comer dos seus frutos. Assim que o outono chegar e ela nascer, plantarei uma romãzeira com o seu nome! Uma romãzeira da Pérsia!

sexta-feira, 24 de junho de 2016

CRÓNICAS GASTRONÓMICAS X - FISH AND CHIPS



Na noite em que o Reino Unido decide se fica ou sai da União Europeia, noite que coincide com o São João, vou aqui falar de um dos mais tradicionais pratos britânicos, se não mesmo o mais tradicional: fish and chips (cada país tem o comer que merece). Como toda a gente sabe, e quem não sabe fica a saber, fish and chips é um pobre e proletário prato de feixe frito acompanhado de batatas fritas a que os mais puristas acrescentam um acompanhamento de ervilhas esmagadas. Nós temos o costume de comer peixe frito com arroz de tomate, mas a combinação com batatas fritas é perfeita. Come-se por toda a Inglaterra, mas se for a Albufeira, no Algarve, tem lá restaurantes que conseguem um filete de peixe envolto num perfeito polme feito com farinha, ou não fosse aquilo terra de ingleses.
Chamei-lhe prato proletário porque a sua disseminação pelo país se deveu em grande parte ao crescimento da classe operária numa Inglaterra que iniciava a Revolução Industrial, e que o consumia das bancas improvisadas à porta das casas humildes que aumentavam assim o seu rendimento. O hábito de comer peixe frito em Inglaterra deve-se à Inquisição e à expulsão dos judeus da Península Ibérica. Foram os judeus expulsos da península, de Portugal e da Andaluzia, quem levou aos ingleses o hábito de comer um frito de peixe envolto em farinha. Como se vê os ingleses só têm lucrado com os restantes europeus.
A primeira loja de fish and chips é disputada entre a barraca de madeira no mercado da cidade de Mossely, no Lancahire, e o estabelecimento que existiu na Cleveland street em Londres, entre 1860 e 1863, no entanto Charles Dickens, no seu romance “Oliver Twist” publicado em 1839, refere já um armazém de peixe frito no East End, a zona operária de Londres. O sucesso foi tal que em 1931, uma loja de Bradford viu-se forçada a contratar segurança para o controlo da fila durante as horas de ponta. Foi o único prato que não sofreu racionamento durante a 2ª guerra. Quando chegava o peixe, vendia-se até esgotar.
Para fazer o prato esqueça tudo o que sabe sobre o polme das nossas avós. E esqueça os ovos, tudo porque o polme leva farinha, fermento em pó (ou bicarbonato de sódio) e… cerveja. Usa-se a cerveja lager que é a cerveja que fermentou de fundo e armazenada a baixas temperaturas, seja lá o que isso quer dizer. Deixando de frescuras, a nossa sagres é uma lager e a superbock também.
Vamos então à receita. O peixe pode ser qualquer um usado em filetes, mas o mais clássico é o bacalhau fresco ou o hadoque que é primo daquele. Comece por preparar o polme juntando a farinha, o fermento, sal e pimenta. Bata com a vara de arames muito bem, juntando a cerveja de modo a ficar com a consistência das natas e a cobrir as costas de uma colher de pau. Seque bem os filetes, tempere-os, cubra ligeiramente com farinha antes de os mergulhar no polme para que agarre melhor, e deixe escorrer o excesso. Frite em óleo quente durante 8 a 10 minutos ou até dourar. Deixe escorrer sobre papel absorvente e guarde-os quentes no forno aquecido. Para que tivessem o gosto clássico seria necessário fritá-los em banha de porco, mas a tanto não me atrevo a aconselhar, até porque os ingleses têm um tipo de banha especial para estas coisas. Em todo o caso, será péssimo para o colesterol ao que dizem. O polme assim feito e frito deverá inchar e ficar separado do peixe para que seja perfeito. Parece fácil mas não é.
Se quiser acompanhar com as ervilhas em puré faça assim: numa caçarola coloque uma noz de manteiga, deite as ervilhas e uma mão cheia de hortelã picada. Tape e deixe cozinhar durante 10 minutos. Regue com sumo de limão e tempere de sal e pimenta. Esmague as ervilhas com um garfo ou com a varinha. Já experimentei e não achei piada.
Acompanhe com batatas fritas temperadas com sal e um toque de vinagre. Os filetes também ficam óptimos com um toque de vinagre. Se gosta da autenticidade proletária, faça uma cornucópia com papel de jornal, o The   Guardian, de preferência que é a favor da União, mas caso não tenha imprensa inglesa, pode usar um diário português, mas nunca o CM que é azia garantida e não se recomenda desde o episódio do microfone. Meta na cornucópia o peixe e as batatas fritas e faça um piquenique à beira mar, de chinelos nos pés, calções e camisa às flores. Se a ASAE implicar não diga que vai da minha parte.


imagem "roubada" daqui:
http://www.urbanpixxels.com/eating-london-food-tour/

terça-feira, 24 de maio de 2016

YES WE CAN

O Sr. Obama, para quem não sabe é aquele senhor simpático que nove meses depois de assumir a presidência dos EUA ganhou o prémio Nobel da Paz, por causa da harmonia dos povos, coisa e tal, foi de visita ao Japão para a conferência do G7, que é uma festa onde só entram pessoas “bem”. Ciente do peso das responsabilidades pacifistas que lhe puseram sobre os ombros, visita Hiroshima para, de acordo com a nota da Casa Branca, "…reflectir sobre o extraordinário custo humano da guerra e a perda de vidas inocentes na II Guerra Mundial – a perda de vidas inocentes em Hiroxima e Nagasáqui, mas também em muitos países do mundo" (sublinhado meu). Assim como quem diz: all right’s (que é prontos em inglês) pá, desculpem lá essa coisa das bombas mas os outros também fizeram coisas más, não fomos só nós!
De caminho, porque é uma pessoa poupada e pacifista, repito, aterra no Vietname para, à maneira dos índios do seu país, fumar o cachimbo da paz com o mandante lá do sítio, e rasgar à frente do dito a declaração que proíbe os EUA de venderem armas ao Vietname, o que fará os americanos enriquecerem, coitados, e os vietnamitas endividarem-se, sortudos, enquanto a Paz se passeia pela Ásia (como toda a gente sabe as armas estão para a Paz, como os arados para a agricultura). A coisa é tão engraçada que houve um cartoonista que pôs no South China Morning Post (o Correio da Manhã daquelas bandas mas em inglês, em grande e em melhor), um urso panda chinês a perguntar se vão ensinar os vietnamitas a surfar, (talvez não saibam mas o Sr. Obama é do Hawaii, a pátria do Surf), tendo em conta as disputas no mar da China com o arquipélago de Spratly, uma vez que os americanos com o fim do embargo, em vez de armas irão vender pranchas de surf como toda a gente sabe, que o seu presidente é um pacifista.
Para quem também não sabe (tenho de explicar tudo, tá visto!) o arquipélago de Spratly é riquíssimo e valiosíssimo estrategicamente, e por isso reclamado por Filipinos, Chineses, Vietnamitas, Japoneses,…, porque não pertence a ninguém. Isto é, julgam eles porque não lêem os tratados. Toda a gente sabe (os que lêem) que pelo tratado de Tordesilhas, abençoado pelo Papa Júlio II, aquilo nos pertence. É altura do presidente Marcelo arranjar um tempo antes do 10 de junho e das marchas de santo António na avenida, para dar um pulo a Roma e avisar o Papa Francisco, e depois ir até Macau (o Marcelo não foi convidado para a tal festa do G7) para, em bicos de pés, gritar bem alto que temos um primeiro-ministro com origens asiáticas e que as Spratly são de Portugal, e recomendar ao Sr. Obama que ponha o ukulele (cavaquinho em havaiano) no saco. Talvez o oiçam!



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quarta-feira, 18 de maio de 2016

AEROPORTO JOÃO TORTO



Dizia Eça de Queiroz que “A antropologia psicológica não aceita como grandes homens senão os criadores da arte, da ciência ou da filosofia”, no entanto, em Portugal, há uma tendência de engrandecer os políticos que está na proporção inversa da importância que se dá aos homens das ciências ou das artes, e a filosofia é coisa para tontinhos. Esta tendência fez-se notar de novo no rebatizamento do aeroporto de Lisboa, tendo o país perdido a oportunidade de homenagear a quem Portugal tanto deve no campo da ciência aeronáutica e cujos nomes se enchem de pó nas gavetas fechadas da memória colectiva deste Povo. Razão tinham os romanos quando situaram o rio Letes, o rio do esquecimento, no território nacional.
Humberto Delgado merece todas as homenagens devidas pela coragem de ter mudado de opinião e de ter confrontado o regime presidido por Salazar. A coragem dos homens é sempre um bom motivo para homenagear e quero crer que a vontade de rebatizar o aeroporto de Lisboa com o seu nome se deveu a esse gesto corajoso. A sua carreira ligada à aviação, no entanto, foi mais dedicada à gestão aeronáutica que à ciência da mesma, e foi feita quando ainda se entusiasmava com o Homem Novo de um Estado Novo. Perceber-se-ia o gesto se na História do país não houvessem tantos pioneiros da aviação que também mereciam essa distinção e, sobretudo, ser lembrados pela Pátria, como Bartolomeu de Gusmão, Abreu de Oliveira, Cipriano Pereira Jardim (o esquecido inventor do balão dirigível), Alberto Sanches de Castro, Jorge de Sousa Gorgulho, Gago Coutinho, Sacadura Cabral, e muitos outros. Não foi por falta de nomes da aviação portuguesa que se atribuiu o nome de um político ao aeroporto. Não faltam praças, avenidas, escolas, edifícios que possam servir para homenagear e lembrar o político que queria demitir Salazar, mas aeroportos há poucos e esses deviam servir para lembrar os pioneiros da aviação, porque os homens da técnica, da ciência e da arte também merecem ser lembrados. Por incrível que pareça o único aeroporto que tem o nome de Bartolomeu de Gusmão situa-se no Rio de Janeiro e encontra-se desactivado.
Fosse eu quem mandasse e o aeroporto de Lisboa receberia o nome de João Torto, um humilde enfermeiro e mestre escola de Viseu que, poucos anos após Leonardo da Vinci ter desenhado as suas máquinas voadoras, engendrou uma geringonça e subiu com ela à torre da Sé de Viseu na esperança de alcançar o céu, lançando-se dali em pleno vôo, cheio de coragem e atitude. O telhado da capela de S. Luís, onde o malogrado enfermeiro aterrou, foi assim a primeira pista de aterragem de Portugal. Era o seu nome que merecia ser imortalizado no aeroporto da capital.
Dizem-me que tal não podia ser porque afinal o João Torto não alcançou os objectivos a que se propôs…, pois, mas tal como Humberto Delgado também ele teve a coragem de tentar!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

PRIVADAS VAIDADES PÚBLICAS


Fiz todo o meu percurso académico pré-universitário durante o período da ditadura do Estado Novo. Fi-lo, graças a Deus que me fez pobre, em escolas públicas, de longe com instalações e equipamentos superiores à de qualquer colégio privado existente na cidade onde vivia e onde, apesar da ditadura, se respirava (nessas escolas públicas) um ambiente muito mais livre do que em colégios privados. Naquele tempo ninguém contestava o valor da qualidade do ensino público, como hoje ninguém contesta a qualidade do ensino público universitário em confronto com as privadas, com honrosa excepção para a católica. A opção de escolha para o privado tinha a ver com status, evitar misturas com a populaça e, no caso de internato, corrigir os filhos corrécios ou resolver questões que se prendiam com a emigração ou com a falta de escola junto ao local da residência. Os colégios de freiras garantiam a necessidade de virtude das meninas antes do casamento, razão maior para os pais do que a suposta qualidade do ensino. Os pobres da província, na falta de liceu público, mandavam os filhos para o seminário, que dava um ensino de qualidade grátis, na esperança de obter pastores, o que nem sempre se concretizava.
Nunca se punha a questão da qualidade do ensino público, incontestada pela certeza de que Salazar zelava pela coisa pública, e demonstrada pela qualidade dos professores e alunos do público: Aquilino Ribeiro, Vergílio Ferreira, Mário de Sá Carneiro, Edgar Cardoso. Alguns minando dentro de portas o próprio regime, contrariando a tese de que o ensino público garante a ideologia de quem detém o poder. Um burguês rico que se preocupasse com a qualidade do ensino e que vivesse às portas do Liceu Camões, inaugurado por um perigoso socialista de nome Manuel II de Bragança, jamais pensaria em colégios privados para os filhos.
Toda esta discussão em redor de escolas privadas, que nasceram como cogumelos num período em que as estatísticas demonstravam à saciedade que no futuro (que agora chegou), as escolas públicas existentes chegariam e sobrariam, está inquinada. Tão inquinada como a pretensa superioridade do seu ensino face às públicas, principalmente se pensarmos nos colégios que nasceram unicamente para receber os alunos do público e onde não foi preciso esforço algum de qualidade para captar o mercado que o Estado garantia. Não falo, como é evidente, dos colégios que existiam antes desta ideia peregrina de pôr os privados a construir escolas a 600 metros de uma pública, a 1300 metros de uma segunda e a 1600 metros de uma terceira.
Se tenho muitas dúvidas sobre este assunto, tenho porém uma só certeza para além de que nada mudou desde o século XIX: ninguém está preocupado com a qualidade do ensino. Nem antigamente, nem agora.

Imagem: Santa Ana ensinando a Virgem Maria – igreja na cidade alta de Bergamo

quinta-feira, 5 de maio de 2016

CIENTISTAS OU GALINHAS DEPENADAS?


Dizem que foi resolvido o enigma de quem apareceu primeiro, se o ovo ou a galinha. Foi o momento de glória de quem, pondo-se em bicos de pés, se intitula cientista e, ao que parece, após um gráfico, arrumou para o canto da sala, de uma assentada, Aristóteles e Platão.  Ficámos sem saber se usou uma folha de excell se um powerpoint, mas sabemos que o fez com um certo enfado  porque acabou a afirmar: “Agora podemos voltar às nossas vidas”.
Qualquer garoto perceberá de imediato a falácia do cálculo do tal professor de biologia evolutiva de Manchester, que pelos vistos faz qualquer coisa para se tornar conhecido nas redes sociais. Se um dia conseguirá provar a evolução, não faço ideia, mas a involução ficou provada, porque o homem não passa afinal de uma galinha depenada, no dizer do meu velho amigo Diógenes.
Agora podemos voltar às nossas vidas, diz o cientista. Nós talvez, bem como Aristóteles e Platão que continuam bem vivos ao contrário de tão preclaro cientista. Resolvendo o problema do ovo e da galinha para poder continuar com a sua vidinha, desistiu de pensar, logo ficou morto, como tão bem explica Clarice Lispector:
“… O ovo é branco mesmo. Mas não pode ser chamado de branco. Não porque isso faça mal a ele, mas as pessoas que chamam ovo de branco, essas pessoas morrem para a vida.”
Tenha atenção à Clarice, caro cientista. A sua descoberta é a prova do seu erro: “… Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro.”
Também pode dar-se o caso de que tenha sido fome. Fome de notoriedade! “… Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.” Diz a Clarice que percebe muito mais de ovos que qualquer cientista de biologia evolutiva de Manchester.
Caro leitor, faça um favor a si mesmo. Deixe o cientista sossegado (não convém mexer com os mortos) e leia o magnífico conto de Clarice Lispector: “O OVO E A GALINHA”.


Imagem: “Esperando o Sucesso”, óleo de Henrique Pousão, 
Museu Nacional Soares dos Reis

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O ESPECTÁCULO GROTESCO DE UMA DEMOCRACIA


O jantar de Domingo começou com a votação do impeachment a Dilma Rousseff. Quando larguei a televisão já era madrugada de segunda-feira. Assisti porque o que se passava diante dos olhos era um exercício ao mesmo tempo fascinante e grotesco. A realidade que ali passava diante dos olhos não era o que julgava ser o funcionamento da casa da democracia. Diante de todos pudemos descobrir, em directo, um Brasil saído das profundezas que pensávamos existir somente nas telenovelas a que nos habituámos a ver: Gabriela, O Bem Amado, Roque Santeiro… Foi um desfile de Odorico Bastos, Sinhozinho Malta, Florindo Abelha, viúva Porcina...
Para que conste, não nutro qualquer simpatia por Dilma Rousseff ou por Lula da Silva. A arrogância, o desprezo com que nos trataram, demonstrando um provincianismo bacoco, a ignorância e a falta de sentido de estado, desagradam-me. Mas como muito bem lembraram alguns deputados a favor do impeachment, apesar de tudo, o que estava em causa era o julgamento político de um suposto crime da presidente e não a sua política governamental, que para isso não tinham competência. Não me ficaram dúvidas, no entanto, que o voto foi muito mais contra as políticas governamentais de Dilma do que contra o suposto crime praticado ou não. Como foi declarado, de forma grandiloquente e exacerbada pelos deputados, o voto foi contra o comunismo, o vermelho, o ensino do sexo nas escolas, as uniões gay, o suposto ataque à família, o ateísmo, etc..
Quase todos os deputados que votaram a favor do impeachment (e foram mais de 2/3), cientes do efeito televisivo que a sua presença teria na sua terra e famílias, com gestos de fazer inveja a um shakespereano Marco António (venho para sepultar César, não para elogiá-lo…), falaram em nome de Deus, em nome dos pais, das mães, das esposas, dos filhos (houve mesmo um que voltou ao microfone, muito tempo depois de votar, porque se tinha esquecido de nomear um dos filhos), das tias (a sério), dos avós, da Nª Srª da Nazaré, dos filhos por nascer, das suas cidades, do seu estado, da corporação da sua profissão, dos seus eleitores, do povo Evangélico, pelo REINO DE ISRAEL e pela cidade santa de JERUSALÉM!!! (nenhum se atreveu, no entanto, a citar as amantes ou os amantes, para bem dos costumes).
“BEM-AVENTURADA É A NAÇÃO CUJO DEUS É O SENHOR! EU VOTO SIM”. E citando o Salmo 33, gritavam o seu voto, enquanto eu me afundava no sofá receando a ira divina.
Alguns, imitando João Soares, chegaram mesmo a afirmar qual seria o sentido de voto de alguns ausentes e falecidos. Uma deputada começou a defender Dilma e acabou votando Sim. O presidente da mesa sorriu dando-se conta do erro? A ser engano era-lhe favorável, siga a votação!
De outros deputados chegámos mesmo a saber o nome de toda a sua família e árvore genealógica que não chegava ao Manuel e à Maria de uma aldeia remota do Minho, ao cacique Tupiniquim ou à rainha Ginga, porque o presidente da mesa atalhava a tempo.
Um deputado pelo Não, com ironia, disse pensar que vinha para uma reunião política e afinal via-se no meio de pais, de mães, de filhos. Dois deputados, também pelo Não, um deles padre, fizeram questão de lembrar a tão religiosa e extremosa assembleia as violações que tanta invocação e atitude faziam ao 2º, ao 4º e ao 7º mandamentos da Lei de Deus!
Houve de tudo, desde cânticos no momento do voto, a disparos de foguetes de confetis. Um Tiririca comedido, assustado com a concorrência à profissão de palhaço, votou Sim. Um grande aplauso. Outros, mais líricos, falaram em verso. A oratória, a retórica, as artes declamatórias, a gritaria e a festa carnavalesca tiveram rédea solta, ou não estivéssemos no Brasil. Todos eram contra a corrupção apesar de na mesa se sentarem acusados da mesma córrupêção (como tanto se ouviu). Os que votaram Não, sem medo e cara a cara, acusaram o presidente da mesa de ladrão, corrupto, gangster, canalha, criminoso, covarde… “A sua hora chegará, Eduardo Cunha.” Ouvia-se gritar.
Os que votaram sim ao impeachment, sabendo da força da televisão, distribuíram-se na sala para que fossem vistos e ouvidos. Primeiro por detrás da mesa da presidência com cartazes e faixas, depois em redor do microfone onde se fazia a votação, tapando com os cartazes os que diziam Não, para que em casa os não víssemos. Ali, junto ao microfone, por vezes, chegaram a intimidar, ou pretenderam intimidar quem votava Não. Foi feio de ver o que era suposto ser uma sessão de debate político transformado num espectáculo triste. Apesar de tudo, convenhamos, o nível já tinha baixado com Lula e Dilma.
A democracia é o pior regime com excepção de todos os outros, dizia Churchill que sabia bem dos perigos que este sistema comporta e da necessidade de criar mecanismos de controlo das suas deficiências, e eu dei por mim a pensar no despotismo esclarecido de Frederico II da Prússia, amigo e companheiro de Voltaire…
A minha opinião a favor do presidencialismo foi ferida de morte nesta noite em que assisti a este espectáculo grotesco de uma certa democracia, num país que gostamos de pensar ser a parte boa de Portugal, como já ouvi alguém dizer.

Num sítio onde todos se tratam por Vossa Excelência, não sobrou excelência nenhuma. Como tanto se ouviu nesta noite, eu repito: “Que Deus tenha misericórdia…”