sábado, 26 de agosto de 2017

VIVA A DIFERENÇA DE GÉNERO


Ontem, quando passeava pelo parque das Caldas, reparei numa jovem que envergava uma t-shirt onde se lia, em inglês, que a roupa não tinha género. Aparentemente, uma t-shirt, de facto, não tem género, mas este tipo de afirmação esconde uma ideia fascizante de que o Homem e a Mulher devem desaparecer para dar lugar a um ser sem género. Como sou adepto da diversidade esta ideia de acabar com a diferenciação de género soa-me tremendamente fascizante e desumana. O ser humano é homem e mulher, e é na sua diferença que está o segredo da nossa riqueza que assenta na diversidade. Viva a diferença de género, com ou sem t-shirt.
A diferença entre Homem e Mulher assenta, no entanto, na única função exclusiva a um género: a mulher pode gerar filhos e alimentá-los, o Homem não. Por isso os seus corpos são diferentes e o Homem só é preciso para lá ir pôr a semente no ventre fértil da Mulher. Ao Homem sobra-lhe, portanto, tempo, luxo que as mulheres não têm. O Homem precisou de desenvolver as competências que nas mulheres são inatas: isto é, todas, menos a de gerar filhos.
Dizia um tonto na blogosfera, sarcasticamente, que queria ver as mulheres experimentarem determinadas profissões de homens rijos e duros. Depois dava, entre outros exemplos estapafúrdios, o de mineira e ferreira. Eu morreria à fome se, para sobreviver, tivesse de entrar numa mina. Não tiveram escolha as desgraçadas mulheres descritas por Zola, que no século XIX, ainda meninas e sem “ordem” para ter filhos, eram enterradas nas minas do Norte de França para extrair o carvão que enriquecia os burgueses que guardavam as filhas em casa por serem frágeis.
Frágeis são os homens da minha terra que caminham de chapéu de sol no braço à frente da mulher que, com o filho nas costas, carrega à cabeça a trouxa da viagem.
Na iluminura de uma Bíblia inglesa do início do século XIV, os monges não tiveram qualquer rebuço em lá pintar uma mulher a trabalhar na forja para fabricar os pregos que iriam ajudar a calçar os pés das bestas, porque o marido, coitado, se ferira num braço (se a mulher se ferisse o homem trataria de arranjar outra). No século XVIII, no país de Gales, Marged Ferch Ifan, uma mulher enorme (não são todas?), era a mais famosa ferreira do condado. Com a bonita idade de 70 anos, ainda lutava com qualquer homem que a desafiasse. Com dois sopapos dados a tempo convenceu o marido a largar o álcool para sempre. Para além da forja, era uma exímia sapateira, carpinteira, caçadora, remadora, e mantinha uma taberna junto às minas de cobre. Para mostrar que era fêmea sensível e não bruta como um macho, entretinha os mineiros bêbados tangendo, com as manápulas enormes de ferreira, as cordas da harpa que ela mesma construíra.
Por ser a favor da diferenciação de género, achei muito bem que a Porto Editora tivesse feito cadernos separados para rapazes e raparigas, mas foi tremendamente injusto que tivesse colocado os exercícios mais difíceis no caderno dos rapazes… pobres rapazes!

terça-feira, 15 de agosto de 2017

15 DE AGOSTO - PARA QUE SERVE UM DOGMA?


Ao ler-se o que por aí se vai escrevendo sobre o feriado de hoje, corre-se o perigo de ficar com a ideia que foi o papa Pio XII quem institui a festa e Salazar correu atrás a torna-la dia feriado. Ora Pio XII tornou a história da Assunção de Nossa Senhora (subida aos céus em corpo e alma) como dogma da igreja católica, isto é, os católicos estão obrigados a acreditar nesse mistério, mas a festa desta crença existe desde os primeiros tempos da Igreja. Os ortodoxos, que não estão obrigados aos decretos do Papa, também a celebram, chamando-lhe a dormição de Nossa Senhora, porque, de acordo com os relatos mais antigos dos apóstolos Nossa Senhora teve uma morte serena e sem dor.
A história da pintura europeia está cheia de Assunções de Nossa Senhora, o que demonstra bem que esta festa é mais antiga do que o Dogma e os decretos de Salazar. Já no século IV o bispo de Salamina de Chipre, Santo Epifânio, perante o facto de não se encontrar Maria sepultada, admitia a sua Assunção, confirmando o que, séculos antes, Santo Irineu (século II) admitia com base nos relatos apócrifos dos apóstolos.
Mas é São Gregório de Tours, no século VI, a proclamar a Assunção em corpo de Maria e Carlos Magno, no século IX, obteve a autorização do Papa para instituir a sua Festa.
Quiseram assim os primeiros cristãos elevar Maria à mesma dignidade de Jesus, fazendo-a elevada aos Céus em corpo e alma rodeada de um coro de anjos cantando a sua Glória, como pintou El Greco e tantos outros. Em Santa Maria em Trastevere, a mais bela igreja de Roma, lá está, nos belos mosaicos da abside, Maria, não só à direita do Filho, mas sentada com Ele no mesmo trono.
Esqueçam, portanto, o Salazar e a infalibilidade papal e divirtam-se. Maria subiu aos Céus e nós temos a Esperança de o fazer. Não precisamos de dogmas para estragar a Festa, mas a liberdade de um feriado para a fazer.
Imagem: abside da basílica de Sta Maria in Trastevere, Roma 2015