segunda-feira, 29 de junho de 2015

GALINÁCEOS, CASAMENTOS E DIÓGENES

É sabida a preocupação da filosofia em definir o que é o Homem. Platão afirmava que era um bípede implume (isto porque nunca assistiu a um gay pride). Famosa ficou também a resposta de Diógenes que lhe atirou uma galinha depenada para dentro da academia depois de gritar: “Eis o homem de Platão!” Mais tarde foi a vez de Aristóteles colocar a célebre questão de quem teria nascido primeiro: se o ovo se a galinha. E foi assim que os galináceos passaram a povoar a nossa forma de pensar (ou não pensar). É ver o pessoal todo a pôr likes em tudo o que é aforismo de algibeira, como bagos de milho atirado, e ninguém se atreve a nadar contracorrente com medo de ser apelidado de fóbico de alguma coisa, porque o homem é galináceo, não é truta.
Agora foi o facebook que se engalanou de arco íris e é ver os meus amigos de todas as cores. Como Aristóteles, têm uma preocupação em arrumar tudo muito direitinho nas gavetas apropriadas, porque isso lhes confere respeitabilidade. E assim, tudo arrumadinho, homossexuais para um lado, héteros para o outro, não há confusão possível não vá o diabo tecê-las e chamarem-me nomes de que não gosto, como se o Homem não fosse macho e fêmea com possibilidade infinitas de procurar e encontrar prazer, uns dias comendo figos e outros dias bananas. Nada de confusões. A respeitabilidade é linda e ficou tudo encantado porque o Supremo Tribunal do Estado mais poderoso do mundo disse: sim senhor, os homens e as mulheres podem casar. Quer dizer, uns com os outros. Que raio, estou a fazer uma confusão dos diabos: Os homens com os homens, as mulheres com as mulheres, como já faziam (já quase não fazem) os homens com as mulheres e vice-versa. Tudo arrumadinho e respeitável que é para não andarem para aí a fazerem porcarias uns com os outros às molhadas. Dizem que foi pelo direito à felicidade. E eu a pensar que o homem e a mulher se casavam porque preferiam ser infelizes acompanhados, que felizes solitários. Mas pronto, pode ser que tenham encontrado a fórmula com a bênção do Estado que passa a conferir carta de alforria aos afectos de cada um. Mas lá dizia o meu amigo Diógenes, outro grego, o da galinha depenada, lembram-se? “Idade para casar? Nunca quando ainda se é jovem, nunca quando se já é velho”.
Dizem que é para imitar os gregos (está na moda) que a sabiam toda. Mas os homens gregos, tirando o caso de Aristóteles que tinha obsessão por gavetas, casavam com mulheres gregas para lhes fazerem os filhos, e iam para o deboche com os outros homens, e nunca lhes passou pela cabeça estragar tal felicidade com essa coisa de papel passado. Mas os gregos não tinham vergonha da sua ambivalência, como agora que se quer tudo arrumadinho no seu canto.
Sossegaram os meus amigos que gostam de futebol, homens suados a correr, mostrando os músculos bem definidos, tudo nu nos balneários, uma festa, e assim disfarçam o que não se pode confessar e podem pôr o arco-íris à vontade porque são muito machos e agora, com isto do casamento, já não há perigo de confusões. Têm orgulho de ter amigos gays, como amigos negros (e eu fico sem saber o que dizer, porque nunca olho para a cor dos amigos e muito menos para o sexo). E quem não gosta é homofóbico e assim toca a pôr um like que é para não me chamarem nomes, e lá vão os galináceos todos contentes com a raposa a guiar-lhes o caminho.
Vai um tipo muito sossegado, com o amigo de infância, depois de um jogo em que o Benfica ganhou, bebem umas bejecas, o gajedo desaparece, porque estão bêbados, e de manhã acordam um ao lado do outro. Antigamente desculpavam-se com os copos, não se fala mais nisso, não dei por nada, não faço ideia do que aconteceu, olha não sei como foi contigo, mas eu não achei piada nenhuma… Agora, diz um para o outro: tens de divorciar-te da Maria e casamos… fosga-se! Dizem que é pela felicidade?! Tá tudo doido.
Mas pronto, casa-se tudo que brincar sozinho é que não vale que é uma grande porcaria que só o Diógenes (lá está ele de novo) é que o fazia para depois dizer: “quem me dera poder saciar também a fome esfregando apenas a barriga!”
            Sejam felizes.


sábado, 20 de junho de 2015

A PINTA DOS POLÍTICOS, E O QUE LHES FALTA


Ouvi há dias na televisão o Dr. João Soares afirmar que os líderes da Grécia, ministro das finanças e primeiro ministro, eram “tipos com muito boa pinta”, pelo que não percebia porque raio os líderes europeus e o FMI, que, ao contrário, têm tão má pinta (como afirmou), não lhes faziam a vontade. Ouvindo tão preclaras interrogações do Dr. Soares (jr.) julguei perceber a razão por que Cristina Lagarde gasta tanto dinheiro nos trapos e nas joias que usa: esconder a má pinta que tem. Lamentamos todos, nós e os gregos, que a Srª FMI não partilhe do gosto estético do João e não se renda à boa pinta do Varoufakis. Outros gostos…!

Sabemos todos que os nossos políticos andam preocupados com a desertificação do país, não só pela fuga dos jovens, mas também pelos baixos índices de natalidade. No meio de uma reunião em que esta preocupação se discutia, ouvi um autarca afirmar que na sua terra ainda não se sentia essa falta de crianças ao contrário do que se passava noutras terras da região. Achava ele que isso se devia ao facto de os seus conterrâneos irem pouco à missa, não perdendo assim o tempo precioso para fazer filhos.
Afinal é tudo culpa dos gregos que inventaram Chronos, pensei eu com os meus botões, e dei por mim a lembrar a pobre rainha Maria II, que entre a missa diária, as tricas com o Saldanha, as revoltas da Maria da Fonte e Patuleias, a educação dos filhos, as idas à tourada e o incêndio do palácio de Barcelos, conseguiu, no espaço de vinte anos, parir onze filhos enquanto punha o país na ordem. A dificuldade dos seus partos e a obesidade que lhe arruinava o coração e lhe estragava a pinta, obrigou os médicos a aconselhar repouso. A rainha respondia-lhes que se morresse, morria no seu posto (morreu de parto), deixando-nos a todos intrigados se posto significava o trono ou os lençóis, e com suspeitas sobre as causas do incêndio do palácio de Barcelos onde ela e o rei consorte… dormiam.
Maria II tinha o que não têm os políticos de agora. Foi uma excelente negociadora que conseguiu pôr ordem numa casa que encontrou de pantanas, e fez filhos. Percebi assim que, ao contrário do que aquele eminente autarca e os médicos pensam, fazer filhos não é uma questão de tempo, tal como a boa pinta nada tem a ver com finanças e negociações, como julga o Dr. João Soares… É tudo uma questão de tesão! Que não faltando ao povo falta aos políticos que não conseguem criar condições de esperança.


(para os sensíveis: tesão; do latim tensio que significa rijeza)


Imagem (peço desculpa pela má qualidade): imperador Carlos Magno, pai da Europa e de vinte filhos conhecidos. Ia à missa e obrigou os alemães a fazer o mesmo.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

A NOVA INQUISIÇÃO


É voz comum, disparatada mas comum, que a Igreja, através da inquisição, condenou Galileu por heresia mantendo assim um combate constante contra a ciência. Quem assim pensa não faz a mínima ideia do papel da Igreja no ensino da Ciência e do facto de Galileu nunca ter sido considerado herético (não tendo sido torturado e muito menos condenado à morte). Galileu defendeu uma teoria que já existia mas que só era permitida como hipótese para os astrónomos fazerem os seus cálculos, e que ia contra o sistema aristotélico defendido pelos sábios universitários. Ora a Igreja era quem mandava nas universidades e as invejas dos sábios universitários foram mais fortes que a amizade do Papa Urbano VIII pelo famoso matemático e astrónomo. Galileu era arrogante e desbocado, chegando a dizer algumas tolices como a de que a prova que a Terra se movia era o facto de haver marés, chamando idiotas aos que defendiam o efeito da Lua. Mas Galileu era um grande cientista e tinha razão, apesar do disparate das marés. Não obstante perdeu a carreira e foi mesmo condenado à prisão, que se transformou em domiciliária, sem pulseira, por pressão dos seus amigos, o arcebispo de Siena e o Grão Duque da Toscana, na sua residência da Vila do Gioiello, em Florença.
Com o caso de Galileu encerrado, a inquisição extinta, e as universidades tornadas laicas, julgámos nós, gente do senso comum, que a liberdade de expressão permitiria a qualquer cientista dizer os disparates e as idiotices que quisesse, desde que isso não pusesse em causa o seu raciocínio científico. Não é assim. Vivemos sob o escrutínio do politicamente correcto, e tal como na Renascença, em que não era permitido contradizer Aristóteles ou os Padres da Igreja, não podemos emitir opinião contrária à defesa das chamadas causas fracturantes, mesmo que isso não interfira com o nosso juízo científico. Somos todos Charlie, mas estamos longe de sermos Tim.
Sir Tim Hunt, cientista com Nobel a atestar a sua qualidade, teve de abandonar a sua carreira por confessar publicamente que se apaixonava pelas cientistas com quem trabalhava e afirmar que o choro é também uma característica feminina, demonstrando à saciedade não perceber nada de mulheres. Foi condenado, não por ser mau cientista, mas por ser um idiota pinga amor. Ao contrário de Galileu, não teve direito, sequer, a julgamento.
Voltando a Galileu, tenho a certeza que o famoso astrónomo seria de novo condenado pelos modernos familiares do Santo Ofício que zelam pela correcção da linguagem e do pensamento. É que afirmar que a Terra gira em volta do Sol, é um axioma absolutamente machista e contrário ao compromisso que a Universidade tem com a igualdade de género. Em vez do sussurro: E pur si muove, ouviríamos, e pur si muovono insieme
Sabem o que vos digo? Vou até ali à esplanada, beber umas bejecas e apreciar o movimento das pernas da outra metade da humanidade, imaginando-me um Sol heliocêntricamente instalado. A frase é redundante, eu sei, mas que se dane.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

QUANDO O KEN É O HERÓI, O MUNDO É O QUÊ?


Fernando, o nosso santo António que agora celebramos, e Francisco eram jovens na casa dos vinte anos quando, cheios de coragem, confrontaram a família, o mundo em que viviam e os inimigos que os ameaçavam com o martírio, porque acreditavam que era possível um mundo mais justo e solidário. Marcaram indelevelmente a consciência da Europa e foram o modelo para muitos outros jovens. O nosso tão apregoado Estado Social deve muito, senão tudo, a estes jovens corajosos.
No meu tempo de menino, marcado já por outros valores, maravilhei-me com o Tarzan, esse herói nietzscheano. Era um cromo da banda desenhada mas não deixava de ser a popularização do Übermensch, o Homem que vai além de si mesmo, o Super-Homem, como pregava o filósofo alemão que ainda não conhecia. E depois havia o fascínio erótico que o bom selvagem, que não obedece a nenhuma lei senão à sua própria, exerce sobre as mulheres, ou assim pensam os rapazes. Se no meu tempo seria ridículo vestirmo-nos de burel (os hippies são uma tentativa absolutamente falhada do anti-herói franciscano), já aparecer na praia de sunga à tarzan era perfeitamente justificável e compreensível. Mais tarde salvei-me por outra figura de herói, também com traços nietzscheanos: Alexandre, o Magno, mas nunca perdi de vista Francisco e António, escondidos no meu esquerdismo mal assumido.
Para se igualarem ao Tarzan ou aos seus jogadores preferidos, os jovens perdiam (ou ganhavam) o tempo em exercícios de musculação ou jogando à bola, e isso só lhes beneficiava a saúde. Quando um jovem se submete a sucessivas cirurgias, prejudiciais para a saúde, para se tornar parecido com o seu herói: o Ken da Barbie, não deixa de mostrar alguma coragem, mas o sinal que lança sobre o rumo da nossa sociedade é assustador: o Ken é um boneco cujo único objectivo é acompanhar a Barbie. Um companheiro casto, ainda por cima. Não por opção como Francisco e António, mas por falta de atributos, o que no imaginário de qualquer homem lhe retira a coragem por não os ter no sítio.
Um jovem aprende e cresce em luta com o mundo e com os pais, como Francisco e António, mas CelsoSantebañes teve o apoio de pais e cirurgiões para o seu delírio. Tinha quase a idade de Francisco e António mas nunca cresceria. Morreu devido a uma leucemia linfoide e a uma pneumonia bacteriana, que se não foram consequência das cirurgias, também não ajudaram nada, pelo contrário. É demasiado estranho para compreender. E é tão triste que guardo-me de dizer o que penso sobre os pais e cirurgiões.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

NOVA ARMA GEOESTRATÉGICA


O mundo espantou-se quando no passado dia 27 de maio foram detidos alguns membros da FIFA à beira da sua reunião anual, acusados de corrupção.
Dizer que o mundo se espantou é força de expressão. Já ninguém se espanta com corrupções no futebol, mas o facto é que eu, que ao contrário de Sá de Miranda já não me espanto (mas ainda me envergonho), fiquei tomado de espanto ao ver esses baluartes da luta contra a corrupção, EUA e Suíça, juntarem-se para prender os prevaricadores. Depois foi um instante até que Mr. Blatter se demitisse apesar de recém eleito.
Estranha-se esta Suíça moralista, cuja obsessão pela limpeza os cega à sujidade do dinheiro que lhes entra pelos bancos e que é causa da sua prosperidade, e estranha-se os EUA preocupados com a transparência no futebol, esquecendo o basebol. À primeira vista é louvável que se combata assim a corrupção mas como com a idade me vou tornando mais cínico, penso com os meus botões que me espanto por nada.
Um dia antes destes acontecimentos um jornal americano fazia publicar as declarações do senador McCain que exigia que a FIFA substituísse o Sr. Blatter por outro presidente que revogasse a decisão de fazer o Mundial de Futebol de 2018 na Rússia. McCain é aquele senhor que há tempos exigia que os EUA fornecessem armas de topo aos “combatentes da liberdade” na Síria e que hoje tomam o nome de ISIS, ou estado islâmico. Seria hoje presidente se Obama tivesse perdido. Agora lança-se numa cruzada contra a FIFA em defesa da democrática e incorrupta Ucrânia submetida às garras da Rússia de Putin.
Perceberam agora? Nada mudou. O mundo continua sereno e tranquilo. Nem os EUA nem a Suíça vão agora pôr-se a combater a corrupção, era o que mais faltava. Podem os bancos e os detentores das grandes fortunas suspirar de alívio.
É só futebol: a nova arma da política geoestratégica americana!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

FEIRA DE LIVROS


Começou a feira do Livro de Lisboa. Uma feira de livros era impensável há 500 anos porque o livro era uma jóia cara, valiosa, e perigosa! Não se deixava assim à mão de semear. Hoje só não lê quem não quer.
É sempre uma alegria poder percorrer o parque por entre as bancas de livros e, havendo dinheiro, um prazer comprá-los. Lê-se pouco e mal, infelizmente, e todos os dias deparamos com o resultado: a ignorância. Quando esta é reconhecida por quem a tem, estamos na presença de um sábio, quando não, temos um néscio pela frente. É o que sucede a muitos tudólogos que proliferam por aí e por aqui. Antes dizia-se: “de médico e de louco todos temos um pouco”, mas agora é ver quem bota faladura nas redes sociais, sobre tudo e coisa nenhuma: eles são médicos que conhecem a dieta milagrosa, financeiros que têm o segredo contra a austeridade, políticos que sabem o melhor para a comunidade, historiadores que julgam que Afonso Henriques está enterrado em Guimarães, botânicos que entendem de poda e acham que sementes causam alergias, confundindo-as com pólens, estetas que afirmam que uma árvore frondosa e de copa natural se parece com um monstro (juro que li). Ignorância disfarçada de cultura.
O livro mais antigo que se conhece é a epopeia de Gilgamesh, um herói lendário dos tempos sumérios. Escrito em verso sobre 12 tábuas de barro há quase quatro mil anos, manteve-se desaparecido até que os arqueólogos o desenterraram em 1840 perto da cidade de Mossul. Poder-se-ia pensar que por isso este épico não influenciou a história, ou pelo menos a história do Ocidente. Nada mais falso. O seu teor transparece nas lendas do Próximo e Médio Oriente e no texto bíblico do livro do Génesis e do Eclesiastes. Se Gilgamesh é, talvez, o primeiro texto registado, a Bíblia é o primeiro livro a ser impresso e foi beber às mesmas fontes. Ler os primeiros livros da Bíblia é assim estar próximo do mais antigo texto alguma vez escrito e das primeiras cosmogonias conhecidas. Ninguém poderá ser suficientemente culto se não tiver lido, pelo menos, o livro do Génesis da Bíblia, independentemente do seu interesse ou desinteresse religioso.
E já agora leiam a epopeia de Gilgamesh. Quem sabe a encontram na feira!? Deixo-vos este pequeno excerto tão parecido com o Eclesiastes.
Gilgamesh, para onde vai a tua pressa? Nunca encontrarás essa vida que procuras. Quando os deuses criaram o homem, atribuíram-lhe a morte; mas a vida, essa ficou para eles. Quanto a ti, Gilgamesh, enche a barriga de coisas boas; de dia e de noite, de noite e de dia, dá-te a danças e alegrias, a festas e a júbilos. Que as tuas roupas sejam novas, banha-te na água, acarinha o menino que te pega na mão e torna feliz tua mulher no teu abraço; porque também isso cabe ao homem.


Excerto de GILGAMESH, versão de Pedro Tamen do texto inglês de N.K.Sandars, colecção: Sinais da Escrita Vega, 2ª edição em 2000

quinta-feira, 21 de maio de 2015

FÁTIMA NÃO EXISTE


Fátima existe? O Sr. Padre da Lixa diz que não. Que não passa de uma grande farsa. Onde está a novidade? Muitos já o disseram. Uns dizem que não passou de manobras contra a república recentemente instaurada, outros que era uma tropelia da Igreja contra a revolução russa, mesmo sabendo, ou talvez não, que a revolução bolchevista só aconteceu depois de terminado o fenómeno de Fátima (o mês de Outubro russo coincidia com o nosso mês de Novembro), outros que não passou da imaginação de crianças esfomeadas e esquizofrénicas. Houve outros que sim senhor, as crianças viram coisas nos céus e que não eram mais do que a visita de extraterrestres, portando encontros imediatos do 3º grau. Tudo e um par de botas.
A maior parte dos que recusam Fátima dizem que as crianças imaginaram coisas e que depois a Igreja se aproveitou e transformou no que ela é hoje. Então qual é a novidade do Sr. Padre da Lixa? A julgar pelo que ouvi e li, e o que para aí anda em facebook, tudo não passou, nas palavras do padre, de uma grande conspiração do clero de Ourém que fez a cabeça das criancinhas, coitadinhas, que foram obrigadas a dizer que viram o que não viram. E por que carga de água estou a dar importância aos devaneios do Sr. Padre da Lixa? Porque um ateu ou descrente ou outra coisa qualquer a falar mal de Fátima não aquece nem arrefece, mas a autoridade de um padre que supostamente está dentro dos meandros da "maléfica" sociedade que é a Igreja, e de que ele afinal faz parte, tem uma autoridade que os meus amigos facebookianos nem questionam e nem se interrogam ou pretendem ler ou saber, senão de todos, de alguns factos sobre aqueles estranhos acontecimentos de 1917.
Portanto, na boca do Sr. Padre da Lixa tudo foi uma congeminação do pobre e desgraçado clero de Ourém que, aflito e desprovido de meios, ainda conseguiram ter ganas de endrominar umas pobres crianças, assusta-las a tal ponto que as desgraçadinhas soçobraram quando apareceu em Portugal, não a Virgem, mas a gripe espanhola, a tão temida pneumónica. Morreram duas e sobreviveu uma. Isto, na opinião do padre da Lixa, é crime pior do que o da pedofilia.
Que a República de Afonso Costa tenha desprovido a Igreja de grande parte dos seus meios, que tenha proibido o culto público e as procissões, que tenha humilhado o pobre clero de Ourém, obrigando-o a despir-se em público nos cemitérios por não poderem vir para a rua paramentados, que o clero caminhava sobre brasas procurando um equilíbrio entre o jacobinismo de Afonso Costa e a administração dos políticos regionais que procuravam mostrar serviço a Lisboa, nada disto, segundo o Sr. padre da Lixa, impediu o clero de Ourém de montar todo aquele fenómeno que em poucos meses correu célere, de boca em boca, pela multidão dos pobres e desamparados do país, a braços com uma crise financeira tremenda e uma guerra que lhes levava os filhos.
Diz o Sr. Padre da Lixa que tudo isto aconteceu porque o clero de Ourém queria restabelecer a diocese de Leiria extinta ainda no tempo da monarquia. Fantástico e formidável clero que conseguiu enganar a raposa velha que se sentava em São Bento, Afonso Costa, que se divertia a praticar tiro aos padres. E mais, diz o Sr. Padre da Lixa, os Papas não estão e não estiveram metidos nesta tramoia mas, coitados, foram também enganados pelos mentores desta farsa. João Paulo II, homem vivido e habituado a revoluções, Bento XVI, intelectual de primeiríssima água, deixaram-se cair na esparrela que ele, Padre da Lixa, conseguiu evitar. Gente do Norte é outra coisa!
Estudando e lendo alguns poucos factos do que se pode ler sobre Fátima de fontes isentas, percebe-se que aquele fenómeno, durante o tempo que decorreu de Maio a Outubro de 1917, foi única e exclusivamente da responsabilidade das três crianças. Imaginação, esquizofrenia, ou o que queiram, tudo aquilo saiu das suas cabeças e a Igreja levou tempo a engolir aquele fenómeno de massas que a assustava tanto como assustava a república, que correu a fazer comícios na Cova da Iria onde poucos compareceram, que tudo fez para evitar manifestações durante o funeral de Jacinta e que, por fim, fez explodir à bomba a capelinha que o povo construíra.
Mas o Sr. Padre da Lixa atreve-se a chamar de assassinos aos padres de Ourém por causa da morte de Jacinta e Francisco. A pneumónica matou milhares de portugueses mas aqueles dois seriam poupados não fora o clero de Ourém, na “sensibilidade” do Sr. Padre da Lixa. Que os bispos tenham proibido os padres de falar nas aparições ou que a Jacinta tenha impressionado e tocado quantos a conheceram e com ela falaram, pelo ânimo, vontade forte e determinação, não interessa ao Sr. Padre da Lixa. O facto de o grande e conhecido médico Dr. Eurico Lisboa a ter trazido para Lisboa para que fosse tratada no hospital D. Estefânia, construído ainda no tempo da monarquia e que foi reconhecido por Florence Nightingale como um dos melhores hospitais pediátricos do mundo, também não interessa nada. A fome e a miséria que corria pelo país, quando se vivia um dos piores momentos financeiros da República que teria como consequência a ditadura de Sidónio Pais, logo a seguir aos acontecimentos de Fátima, não interessam nada. Jacinta morreu porque jejuou. Porque o clero de Ourém queria restabelecer a diocese de Leiria.
.           O padre José Ferreira de Lacerda foi quem mais lutou para que aquela diocese fosse restabelecida, fundando um jornal em Leiria para contribuir para aquele desiderato: “O Mensageiro”. Esse mesmo jornal não hesitou em transcrever a crónica que o jornal laico e republicano “O Século” publicou, em Julho de 1917, sobre as aparições e que a páginas tantas dizia: “especulação financeira” de “algum individuo astucioso que, à sombra da religião, quer transformar a serra d’Aire numa estancia miraculosa como a velha Lourdes”. Estranho caso em que o jornal que mais lutava pela restauração da diocese de Leiria publicasse nas suas páginas tão forte crítica ao fenómeno que no dizer do Sr. Padre da Lixa estava a ser montada pelos seus próprios correligionários.
Fátima não é dogma de fé. Nenhum católico está obrigado a acreditar nas aparições, mas manda o bom senso que não se inventem teorias da conspiração para manchar o bom nome daqueles que já não se podem defender. Os factos estão aí à disposição de quem se quiser dar ao trabalho de os analisar de uma forma crítica e razoável, tendo em conta as circunstâncias históricas.
“Resta que os competentes digam de sua justiça sobre o macabro bailado do sol que hoje, em Fátima, fez explodir hossanas dos peitos dos fieis e deixou naturalmente impressionados - ao que me asseguraram sujeitos fidedignos - os livres pensadores e outras pessoas sem preocupações de natureza religiosa que acorreram à já agora celebrada charneca.” Avelino Ferreira, jornalista do Jornal “O Século”, terminava assim a sua crónica sobre o que viu na Cova da Iria naquele 13 de outubro de 1917.
O jornal “O Século”, fundado em 1880 com o firme propósito de lutar contra a monarquia e instaurar a República, mandou à Cova da Iria o seu jornalista. Avelino Ferreira apanha o comboio em Lisboa e desce em Ourém. Percebe-se na sua crónica aquilo de que ainda hoje sofre a intelectualidade portuguesa que vive em Lisboa: Um profundo desconhecimento do povo rude, pobre e analfabeto da nossa província. É com espanto que descreve o povo descalço a calcorrear vales e montes. Conta cerca de 30 a 40 000 pessoas, e descreve: “vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zenit. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possível fitar-lhe o disco sem o mínimo esforço. Não queima, não cega.”
Não deu explicações, como eu as não dou. Mas acontecer um fenómeno daquela natureza, relatado por gente simples, por letrados (o poeta Afonso Lopes Vieira afirma ter visto o fenómeno em S. Pedro de Moel), por professores de Coimbra e por jornalistas, no exacto dia e hora que fora previsto por três crianças analfabetas, não pode ser uma simples fraude ou farsa. Qualquer céptico sério e razoável tem por obrigação reflectir sobre esta predição de um fenómeno impossível de prever, pois que podendo ser natural é raro.
O sr. Padre da Lixa é um homem bom que acredita que é preciso “limpar as mentes”. Acredita que as mãos que um bispo lhe impôs sobre a cabeça fez descer nele o Espírito Santo para que pudesse, todos os dias, realizar o milagre da transubstanciação na mesa do altar, mas não acredita que a Virgem da Nazaré pudesse descer sobre os ramos de uma azinheira para falar a três crianças analfabetas. Uma saloiice, uma parolice, um paganismo, afirma ele. Como se o Espírito Santo preguiçosamente se manifestasse somente entre o linho e o brocado dos altares e evitasse o pólen das árvores não fosse espirrar. Como se o Espírito Santo não pudesse dar sinais através do arquétipo da mãe primordial que o Povo guarda na sua memória ancestral.
Não sei se o Sr. Padre da Lixa é só contra Fátima ou se vai lançar uma cruzada contra todas as romarias marianas que por esse país fora se fazem, tão pagãs como Fátima, na sua idolatria àquela deusa primordial travestida de Virgem Maria. Diz que Fátima é uma fábrica de fazer dinheiro. De facto hoje não se vê o povo descalço que Avelino Ferreira viu. A região é próspera e as empresas de construção proliferam devido às obras que por ali abundam e que tanto emprego dá. Todos ganham: a região, a Igreja, e até o Sr. Padre da Lixa que hoje publica o 2º livro. A não ser que ofereça o livro, o Sr. Padre ganhará com o fenómeno de Fátima.  
O Sr. Padre da Lixa é um homem bom, mas sem qualquer sentido de humor. Que não vê ali a marca de Jesus. Daquele Jesus que rezava sob o manto protector das oliveiras. Eu, que acho imensa graça à ideia de que Nossa Senhora possa poisar sobre as pobres e singelas azinheiras, continuarei a ir a Fátima para procurar no rosto daquela gente bruta, rude e analfabeta, o segredo das coisas escondidas: “porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos” (Mt11,25).

Imagem: Buenos Aires no existe, 2008, de David Lamelas