Numa
Ágora onde não esteve presente a coragem para rupturas, Atenas venceu Esparta.
Esqueceu, porém, que só um espartano disposto a morrer pôde conter o avanço
dos persas nas Termópilas. Entretanto Pirro faz escola.
segunda-feira, 6 de julho de 2015
sexta-feira, 3 de julho de 2015
FALAR DA GRÉCIA
Pediram-me para falar da Grécia. Que
sei eu de finanças e de economia para falar da Grécia? Lembrei-me de Saramago,
que era um excelente escritor (ganhou um Nobel), mas um péssimo leitor: disse
que a Bíblia era um manual de maus costumes. Ou Saramago não leu a Bíblia ou
não soube lê-la. Ora vejam se o falar da Grécia não seria um pouco diferente se
lêssemos o que diz este pequeno trecho do capítulo 15 do livro do Deuteronómio.
Bem sei que o Antigo Testamento, ao contrário do Novo, não foi escrito em
grego, mas serve:
Deuteronómio,
capítulo15: Ano do perdão das dívidas 1«De sete em sete anos,
cumprirás a lei do perdão das dívidas. 2Eis a explicação deste
perdão: nenhum credor poderá exigir o empréstimo que tiver feito ao seu
próximo. Não exercerá contra o seu próximo e contra o seu irmão violência
alguma, quando for anunciada a remissão em honra do SENHOR. 3Ao
estrangeiro poderás exigir, mas quanto às dívidas do teu irmão farás a
remissão.
4Em
verdade, não deve haver pobres entre vós, porque o SENHOR te abençoará na terra
que Ele próprio te há-de dar em herança para a possuíres; 5mas só se
ouvires a voz do SENHOR, teu Deus, para guardares e cumprires todos estes
preceitos que eu hoje te ordeno. 6Então o SENHOR, teu Deus, te
abençoará como prometeu: poderás emprestar a muitos povos, mas não terás
necessidade de pedir emprestado; dominarás muitos povos, mas eles não te
dominarão.
7Se
houver junto de ti um indigente entre os teus irmãos, numa das tuas cidades, na
terra que o SENHOR, teu Deus, te há-de dar, não endurecerás o teu coração e não
fecharás a tua mão ao irmão necessitado. 8Abre-lhe a tua mão,
empresta-lhe sob penhor, de acordo com a sua necessidade, aquilo que lhe
faltar. 9Guarda-te de alimentar no teu coração um pensamento
perverso, dizendo: ‘O sétimo ano, o ano do perdão das dívidas, está próximo’,
recusando-te sem piedade a socorrer o teu irmão necessitado. Ele clamaria ao
SENHOR contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado.
Afinal falei do Saramago e da Bíblia.
Falo agora da tropa. Quando lá andei ensinaram-me que ou chegamos todos juntos,
ou não chega nenhum. Não se deixam os companheiros pelo caminho e não se diz:
eram 19, ficam 18!
Falei da Grécia? Talvez!
segunda-feira, 29 de junho de 2015
GALINÁCEOS, CASAMENTOS E DIÓGENES
É sabida a preocupação
da filosofia em definir o que é o Homem. Platão afirmava que era um bípede
implume (isto porque nunca assistiu a um gay
pride). Famosa ficou também a resposta de Diógenes que lhe atirou uma galinha
depenada para dentro da academia depois de gritar: “Eis o homem de Platão!”
Mais tarde foi a vez de Aristóteles colocar a célebre questão de quem teria
nascido primeiro: se o ovo se a galinha. E foi assim que os galináceos passaram
a povoar a nossa forma de pensar (ou não pensar). É ver o pessoal todo a pôr likes em tudo o que é aforismo de
algibeira, como bagos de milho atirado, e ninguém se atreve a nadar
contracorrente com medo de ser apelidado de fóbico de alguma coisa, porque o
homem é galináceo, não é truta.
Agora foi o facebook que se engalanou de arco íris e
é ver os meus amigos de todas as cores. Como Aristóteles, têm uma preocupação
em arrumar tudo muito direitinho nas gavetas apropriadas, porque isso lhes
confere respeitabilidade. E assim, tudo arrumadinho, homossexuais para um lado,
héteros para o outro, não há confusão possível não vá o diabo tecê-las e
chamarem-me nomes de que não gosto, como se o Homem não fosse macho e fêmea com
possibilidade infinitas de procurar e encontrar prazer, uns dias comendo figos
e outros dias bananas. Nada de confusões. A respeitabilidade é linda e ficou
tudo encantado porque o Supremo Tribunal do Estado mais poderoso do mundo
disse: sim senhor, os homens e as mulheres podem casar. Quer dizer, uns com os
outros. Que raio, estou a fazer uma confusão dos diabos: Os homens com os
homens, as mulheres com as mulheres, como já faziam (já quase não fazem) os
homens com as mulheres e vice-versa. Tudo arrumadinho e respeitável que é para
não andarem para aí a fazerem porcarias uns com os outros às molhadas. Dizem
que foi pelo direito à felicidade. E eu a pensar que o homem e a mulher se
casavam porque preferiam ser infelizes acompanhados, que felizes solitários.
Mas pronto, pode ser que tenham encontrado a fórmula com a bênção do Estado que
passa a conferir carta de alforria aos afectos de cada um. Mas lá dizia o meu
amigo Diógenes, outro grego, o da galinha depenada, lembram-se? “Idade para
casar? Nunca quando ainda se é jovem, nunca quando se já é velho”.
Dizem que é para imitar
os gregos (está na moda) que a sabiam toda. Mas os homens gregos, tirando o
caso de Aristóteles que tinha obsessão por gavetas, casavam com mulheres gregas
para lhes fazerem os filhos, e iam para o deboche com os outros homens, e nunca
lhes passou pela cabeça estragar tal felicidade com essa coisa de papel
passado. Mas os gregos não tinham vergonha da sua ambivalência, como agora que
se quer tudo arrumadinho no seu canto.
Sossegaram os meus
amigos que gostam de futebol, homens suados a correr, mostrando os músculos bem
definidos, tudo nu nos balneários, uma festa, e assim disfarçam o que não se
pode confessar e podem pôr o arco-íris à vontade porque são muito machos e
agora, com isto do casamento, já não há perigo de confusões. Têm orgulho de ter
amigos gays, como amigos negros (e eu
fico sem saber o que dizer, porque nunca olho para a cor dos amigos e muito
menos para o sexo). E quem não gosta é homofóbico e assim toca a pôr um like que é para não me chamarem nomes, e
lá vão os galináceos todos contentes com a raposa a guiar-lhes o caminho.
Vai um tipo muito
sossegado, com o amigo de infância, depois de um jogo em que o Benfica ganhou,
bebem umas bejecas, o gajedo desaparece, porque estão bêbados, e de manhã
acordam um ao lado do outro. Antigamente desculpavam-se com os copos, não se
fala mais nisso, não dei por nada, não faço ideia do que aconteceu, olha não
sei como foi contigo, mas eu não achei piada nenhuma… Agora, diz um para o
outro: tens de divorciar-te da Maria e casamos… fosga-se! Dizem que é pela
felicidade?! Tá tudo doido.
Mas pronto, casa-se tudo
que brincar sozinho é que não vale que é uma grande porcaria que só o Diógenes
(lá está ele de novo) é que o fazia para depois dizer: “quem me dera poder
saciar também a fome esfregando apenas a barriga!”
Sejam felizes.
sábado, 20 de junho de 2015
A PINTA DOS POLÍTICOS, E O QUE LHES FALTA
Ouvi há dias na
televisão o Dr. João Soares afirmar que os líderes da Grécia, ministro das
finanças e primeiro ministro, eram “tipos com muito boa pinta”, pelo que não
percebia porque raio os líderes europeus e o FMI, que, ao contrário, têm tão má
pinta (como afirmou), não lhes faziam a vontade. Ouvindo tão preclaras
interrogações do Dr. Soares (jr.) julguei perceber a razão por que Cristina
Lagarde gasta tanto dinheiro nos trapos e nas joias que usa: esconder a má
pinta que tem. Lamentamos todos, nós e os gregos, que a Srª FMI não partilhe do
gosto estético do João e não se renda à boa pinta do Varoufakis. Outros
gostos…!
Sabemos todos que os
nossos políticos andam preocupados com a desertificação do país, não só pela
fuga dos jovens, mas também pelos baixos índices de natalidade. No meio de uma
reunião em que esta preocupação se discutia, ouvi um autarca afirmar que na sua
terra ainda não se sentia essa falta de crianças ao contrário do que se passava
noutras terras da região. Achava ele que isso se devia ao facto de os seus
conterrâneos irem pouco à missa, não perdendo assim o tempo precioso para fazer
filhos.
Afinal é tudo culpa
dos gregos que inventaram Chronos, pensei eu com os meus botões, e dei por mim a
lembrar a pobre rainha Maria II, que entre a missa diária, as tricas com o
Saldanha, as revoltas da Maria da Fonte e Patuleias, a educação dos filhos, as
idas à tourada e o incêndio do palácio de Barcelos, conseguiu, no espaço de
vinte anos, parir onze filhos enquanto punha o país na ordem. A dificuldade dos
seus partos e a obesidade que lhe arruinava o coração e lhe estragava a pinta,
obrigou os médicos a aconselhar repouso. A rainha respondia-lhes que se
morresse, morria no seu posto (morreu de parto), deixando-nos a todos intrigados
se posto significava o trono ou os lençóis, e com suspeitas sobre as causas do
incêndio do palácio de Barcelos onde ela e o rei consorte… dormiam.
Maria II tinha o que
não têm os políticos de agora. Foi uma excelente negociadora que conseguiu pôr
ordem numa casa que encontrou de pantanas, e fez filhos. Percebi assim que, ao
contrário do que aquele eminente autarca e os médicos pensam, fazer filhos não
é uma questão de tempo, tal como a boa pinta nada tem a ver com finanças e
negociações, como julga o Dr. João Soares… É tudo uma questão de tesão! Que não faltando ao povo falta aos políticos que não
conseguem criar condições de esperança.
(para os sensíveis: tesão; do latim tensio que significa rijeza)
Imagem (peço desculpa pela má qualidade): imperador Carlos Magno, pai da
Europa e de vinte filhos conhecidos. Ia à missa e obrigou os alemães a fazer o
mesmo.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
A NOVA INQUISIÇÃO
É voz comum,
disparatada mas comum, que a Igreja, através da inquisição, condenou Galileu
por heresia mantendo assim um combate constante contra a ciência. Quem assim
pensa não faz a mínima ideia do papel da Igreja no ensino da Ciência e do facto
de Galileu nunca ter sido considerado herético (não tendo sido torturado e
muito menos condenado à morte). Galileu defendeu uma teoria que já existia mas
que só era permitida como hipótese para os astrónomos fazerem os seus cálculos,
e que ia contra o sistema aristotélico defendido pelos sábios universitários.
Ora a Igreja era quem mandava nas universidades e as invejas dos sábios
universitários foram mais fortes que a amizade do Papa Urbano VIII pelo famoso
matemático e astrónomo. Galileu era arrogante e desbocado, chegando a dizer
algumas tolices como a de que a prova que a Terra se movia era o facto de haver
marés, chamando idiotas aos que defendiam o efeito da Lua. Mas Galileu era um
grande cientista e tinha razão, apesar do disparate das marés. Não obstante
perdeu a carreira e foi mesmo condenado à prisão, que se transformou em
domiciliária, sem pulseira, por pressão dos seus amigos, o arcebispo de Siena e
o Grão Duque da Toscana, na sua residência da Vila do Gioiello, em Florença.
Com o caso de Galileu
encerrado, a inquisição extinta, e as universidades tornadas laicas, julgámos
nós, gente do senso comum, que a liberdade de expressão permitiria a qualquer
cientista dizer os disparates e as idiotices que quisesse, desde que isso não
pusesse em causa o seu raciocínio científico. Não é assim. Vivemos sob o
escrutínio do politicamente correcto, e tal como na Renascença, em que não era
permitido contradizer Aristóteles ou os Padres da Igreja, não podemos emitir
opinião contrária à defesa das chamadas causas fracturantes, mesmo que isso não
interfira com o nosso juízo científico. Somos todos Charlie, mas estamos longe de sermos Tim.
Sir Tim Hunt, cientista com Nobel a
atestar a sua qualidade, teve de abandonar a sua carreira por confessar
publicamente que se apaixonava pelas cientistas com quem trabalhava e afirmar
que o choro é também uma característica feminina, demonstrando à saciedade não
perceber nada de mulheres. Foi condenado, não por ser mau cientista, mas por
ser um idiota pinga amor. Ao contrário de Galileu, não teve direito, sequer, a
julgamento.
Voltando a Galileu,
tenho a certeza que o famoso astrónomo seria de novo condenado pelos modernos
familiares do Santo Ofício que zelam pela correcção da linguagem e do
pensamento. É que afirmar que a Terra gira em volta do Sol, é um axioma
absolutamente machista e contrário ao compromisso que a Universidade tem com a
igualdade de género. Em vez do sussurro: E
pur si muove, ouviríamos, e pur si
muovono insieme…
Sabem o que vos digo?
Vou até ali à esplanada, beber umas bejecas e apreciar o movimento das pernas
da outra metade da humanidade, imaginando-me um Sol heliocêntricamente instalado.
A frase é redundante, eu sei, mas que se dane.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
QUANDO O KEN É O HERÓI, O MUNDO É O QUÊ?
Fernando, o nosso santo
António que agora celebramos, e Francisco eram jovens na casa dos vinte anos
quando, cheios de coragem, confrontaram a família, o mundo em que viviam e os
inimigos que os ameaçavam com o martírio, porque acreditavam que era possível
um mundo mais justo e solidário. Marcaram indelevelmente a consciência da
Europa e foram o modelo para muitos outros jovens. O nosso tão apregoado Estado
Social deve muito, senão tudo, a estes jovens corajosos.
No meu tempo de menino,
marcado já por outros valores, maravilhei-me com o Tarzan, esse herói
nietzscheano. Era um cromo da banda desenhada mas não deixava de ser a
popularização do Übermensch, o Homem
que vai além de si mesmo, o Super-Homem, como pregava o filósofo alemão que
ainda não conhecia. E depois havia o fascínio erótico que o bom selvagem, que
não obedece a nenhuma lei senão à sua própria, exerce sobre as mulheres, ou
assim pensam os rapazes. Se no meu tempo seria ridículo vestirmo-nos de burel
(os hippies são uma tentativa absolutamente falhada do anti-herói franciscano),
já aparecer na praia de sunga à tarzan era perfeitamente justificável e
compreensível. Mais tarde salvei-me por outra figura de herói, também com
traços nietzscheanos: Alexandre, o Magno, mas nunca perdi de vista Francisco e
António, escondidos no meu esquerdismo mal assumido.
Para se igualarem ao Tarzan
ou aos seus jogadores preferidos, os jovens perdiam (ou ganhavam) o tempo em
exercícios de musculação ou jogando à bola, e isso só lhes beneficiava a saúde.
Quando um jovem se submete a sucessivas cirurgias, prejudiciais para a saúde,
para se tornar parecido com o seu herói: o Ken da Barbie, não deixa de mostrar
alguma coragem, mas o sinal que lança sobre o rumo da nossa sociedade é
assustador: o Ken é um boneco cujo único objectivo é acompanhar a Barbie. Um
companheiro casto, ainda por cima. Não por opção como Francisco e António, mas
por falta de atributos, o que no imaginário de qualquer homem lhe retira a
coragem por não os ter no sítio.
Um jovem aprende e
cresce em luta com o mundo e com os pais, como Francisco e António, mas CelsoSantebañes teve o apoio de pais e cirurgiões para o seu delírio. Tinha quase a
idade de Francisco e António mas nunca cresceria. Morreu devido a uma leucemia
linfoide e a uma pneumonia bacteriana, que se não foram consequência das
cirurgias, também não ajudaram nada, pelo contrário. É demasiado estranho para
compreender. E é tão triste que guardo-me de dizer o que penso sobre os pais e
cirurgiões.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
NOVA ARMA GEOESTRATÉGICA
O mundo espantou-se
quando no passado dia 27 de maio foram detidos alguns membros da FIFA à beira
da sua reunião anual, acusados de corrupção.
Dizer que o mundo se
espantou é força de expressão. Já ninguém se espanta com corrupções no futebol,
mas o facto é que eu, que ao contrário de Sá de Miranda já não me espanto (mas
ainda me envergonho), fiquei tomado de espanto ao ver esses baluartes da luta
contra a corrupção, EUA e Suíça, juntarem-se para prender os prevaricadores. Depois
foi um instante até que Mr. Blatter se demitisse apesar de recém eleito.
Estranha-se esta Suíça
moralista, cuja obsessão pela limpeza os cega à sujidade do dinheiro que lhes
entra pelos bancos e que é causa da sua prosperidade, e estranha-se os EUA
preocupados com a transparência no futebol, esquecendo o basebol. À primeira
vista é louvável que se combata assim a corrupção mas como com a idade me vou
tornando mais cínico, penso com os meus botões que me espanto por nada.
Um dia antes destes
acontecimentos um jornal americano fazia publicar as declarações do senador
McCain que exigia que a FIFA substituísse o Sr. Blatter por outro presidente
que revogasse a decisão de fazer o Mundial de Futebol de 2018 na Rússia. McCain
é aquele senhor que há tempos exigia que os EUA fornecessem armas de topo aos
“combatentes da liberdade” na Síria e que hoje tomam o nome de ISIS, ou estado
islâmico. Seria hoje presidente se Obama tivesse perdido. Agora lança-se numa
cruzada contra a FIFA em defesa da democrática e incorrupta Ucrânia submetida
às garras da Rússia de Putin.
Perceberam agora? Nada
mudou. O mundo continua sereno e tranquilo. Nem os EUA nem a Suíça vão agora
pôr-se a combater a corrupção, era o que mais faltava. Podem os bancos e os
detentores das grandes fortunas suspirar de alívio.
É só futebol: a nova
arma da política geoestratégica americana!
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