sexta-feira, 9 de setembro de 2016

CANÇÕES DE EMBALAR

Uma das mais antigas e interessantes tradições musicais é a canção de embalar. Lullaby ou cradle song em inglês, berceuse em francês ou wiegenlied em alemão. A sua função principal é adormecer os bebés, mas servem também para passar a tradição e a cultura, e sobretudo reforçar os laços entre mãe e filho, no pressuposto que devem ser as mães a embalar os filhos ao som de uma canção, mas os pais podem fazê-lo. Eu cantava para os meus filhos a ária da Madame Butterfly, “Un bel di vedremo”. Um baixo tentando cantar árias de soprano…! Só o psicanalista poderá avaliar os estragos causados.
Tem reconhecido valor terapêutico. Devem ser melodias simples, com intervalos consoantes uma vez que se provou que os bebés perdem o interesse com as dissonâncias. A preferência vai também para canções sem qualquer acompanhamento musical, pois o bebé fixa-se melhor no som da articulação das palavras.
Tive a sorte de ouvir muitas vezes a minha mãe cantar-me canções de embalar. Era sempre a mesma, em inglês, “rock-a-by baby”. Até hoje não faço a mínima ideia da letra (já a achei na internet). A minha avó, que era inglesa, cantava em português a canção brasileira: “Encosta a tua cabecinha ao meu ombro e chora”, e nós adorávamos, mas já éramos granditos para embalos ao peito.
Hoje já não se canta em casa, junto ao berço ou no trabalho e é uma pena. Põe-se os phones nos ouvidos ligados ao telemóvel, e adiante. Há tanto curso para futuros pais, mas nenhum que os ensine a cantarem canções de embalar aos filhos. Devia ser obrigatório. Nenhuma criança devia sair da maternidade sem que os pais fizessem prova de canto! À atenção dos senhores governantes.

Uma das canções de embalar mais famosa é o wiegenlied de Johannes Brahms, que aqui deixo como inspiração para os futuros pai e mãe da família. Para estar em linha com a modernidade da igualdade de género e das famílias alternativas, a versão é cantada por dois homens. O importante é que cantem para os vossos filhos.



terça-feira, 30 de agosto de 2016

MAMAS AO LÉU


Agora que anda tudo aflito porque umas querem o lenço na cabeça e outras querem as mamas ao léu (quem é que não quer?), lembrei-me da Nazaré. Afinal o Verão ainda não acabou.
Não foi bem por causa das mamas ao léu que me lembrei da Nazaré, embora fosse um bom motivo, mas porque enquanto esperava no supermercado entretive-me a ler um livro que por lá se vende, sobre os lugares sagrados de Portugal. Excelente livro, mas não comprei. Eu sei! Sovinice minha. E a Nazaré é famosa em todo o mundo, por causa do Mcnamara, e do canhão submarino que faz ondas gigantes e dá o “pão” às suas gentes.
Mas a Nazaré já era famosa antes desta onda, só que se esqueceram. É como as marés. Vai e vem. Já por lá estiveram o Vasco da Gama, a rainha Dª Leonor da Áustria que foi casada com D. Manuel I e era filha de Carlos V, o dono disto tudo, literalmente, e depois foi rainha de França, a D. Leonor, não o Carlos V. (Ainda dizem que agora é que se fazem currículos). A Isabel II da Inglaterra também por lá passou para ver as nazarenas dançarem, mas não subiu ao Sítio e não sabe o que perdeu. S. Francisco Xavier, que é venerado em Goa por cristãos e hindus, também lá foi. Porque a Nazaré sempre foi famosa por causa da sua Senhora. A onda há-de passar, mas a Senhora lá ficará a cuidar das suas gentes. A Senhora de lenço na cabeça, alimentando ao peito o seu filho, e que dá o nome à terra.
A lenda que eu conhecia da Senhora da Nazaré era uma história comum, igual a tantas outras, mas estava enganado. Que o Fuas Roupinho, general de Afonso Henriques e o fundador da nossa marinha, a tinha descoberto debaixo da lapa onde parou o cavalo evitando que caísse no precipício que ali existe. Afinal o Fuas Roupinho já venerava a Santa que era ali conhecida há muito. Salvou-se porque a invocou a tempo de evitar cair quando caçava. Foi um milagre da Senhora, mas não a sua descoberta. Talvez o começo de uma peregrinação.
A história é digna de ser lida e aprendida. Pena que já poucos a conheçam e a que não se dá a devida publicidade. Eu não vou contá-la porque está tudo escrito num pergaminho deixado por um velho monge que ali se acoitou fugido aos mouros: Frei Romano.
Frei Romano foi ali parar juntamente com, imaginem, D. Rodrigo, o último rei visigodo da península, vencido pelos mouros na batalha de Guadalete em 711. Os dois fugiram trazendo com eles a veneranda imagem da Senhora sentada num banco dando de mamar ao filho que trazia ao colo. A imagem seria já muito venerada na própria cidade da Nazaré da Galileia e teria sido esculpida pelo próprio S. José, enternecido ao ver Maria sentada na carpintaria dando de mamar ao filho. Não é uma ternura!?
Depois parece que S. Lucas a pintou (Lucas já pintara, de acordo com a Tradição, o ícone da Virgem de Constantinopla e que trouxeram (roubado) para Veneza). Um monge grego ofereceu-a a S. Jerónimo, este deu-a a Santo Agostinho, e o maior filósofo da Igreja entregou-a ao mosteiro de Cauliniana, em Mérida, na Espanha. Dali veio refugiar-se nos penhascos da Nazaré, que era o fim do Mundo conhecido.
E se frei Romano se tornou ermitão no Sítio, tendo por companhia a Senhora e o menino, o rei Rodrigo refugiou-se no monte Seano, hoje monte de São Bartolomeu, e ali ficou contemplando o Sítio onde sabia estar a Virgem e o menino.
E agora vou confessar-vos um pecado gravíssimo, que isto de falar de mamas ao léu, sejam as de Nossa Senhora ou das meninas na praia, exige confissão: Nunca visitei o monte de São Bartolomeu, a sua capela e a velha igreja de S. Gião. Falta indesculpável. Também, é certo, que não sabia que tinha sido morada de um rei! Só prova que andamos todos desatentos ao que nos rodeia. Foi preciso uma visita ao escaparate de um supermercado!
A Nazaré é famosa? Ah, pois é!

sábado, 20 de agosto de 2016

IDIOTICES E ALTA COSTURA


Desculpar-me-á o leitor por começar esta crónica com uma referência ao livro do Génesis, mas de todos os da Bíblia é um dos meus preferidos, para não dizer mais, para não ofender a riqueza teológica de outros. Logo nas primeiras páginas daquele livro encontramos a história do início da alta costura. Alta porque, efectivamente vinda do alto.
Estavam Adão e Eva no Paraíso quando decidiram comer o fruto da árvore proibida (esqueçam a maçã que nunca fez mal a ninguém e não aparece no livro que cito). Aconteceu o que acontece a muita gente que come o que não deve, sentiram-se envergonhados por se descobrirem nus. Vai daí e puseram à volta da cintura uns saiotes feitos com folhas de figueira (esqueçam as parras de videira que não são suficientemente grandes para esconderem os atributos dos pais da humanidade e também não são citadas no livro). Continuando a narrativa do Génesis, o Senhor Deus resolveu passear-se, pela brisa da tarde (o que prova que o Paraíso não devia ser longe daqui, da zona oeste) e deparou com o estado deplorável, sem gosto, dos saiotes dos nossos antepassados. Condoído, o Senhor Deus fez-lhes umas túnicas com a pele de uns animais (os animais tinham já morrido de velhice, pronto), que devem ter ficado lindíssimas, as túnicas, pois o gosto estético do Criador é incontestável.
Serve assim a roupa, com gosto ou sem ela, para esconder a vergonha de nos sentirmos nus. É assim, e sempre foi assim. Obrigar alguém a despir-se só porque os outros não têm vergonha, nem o Senhor Deus se atreveu mesmo quando se envergonharam do corpo que Ele lhes deu.
            Logo após a revolução francesa, foi decretada uma Lei que dizia: "nenhuma pessoa de qualquer sexo poderá constranger qualquer cidadão a vestir-se de uma maneira específica sob pena de ser considerada e tratada como suspeita e perseguida como perturbadora da ordem pública: cada pessoa é livre para vestir-se de acordo com o seu sexo como lhe convém”.
Sábia lei esta dos revolucionários que nem sempre se lembraram da frase de Cícero: “Não basta conquistar a Sabedoria, é preciso usá-la”.
            Estamos habituados a ver nos franceses um elevado sentido e gosto estético, pese embora a falta de estética na escolha dos seus presidentes (com honrosas excepções para as primeiras damas), mas também a admirar o seu gosto pela liberdade. Proibir o acesso às praias do país a mulheres vestidas da cabeça aos pés é um insulto à História, à Liberdade e ao Bom Senso. O ridículo de tamanha estupidez revela-se quando o fato (não o facto) que pretendem proibir é em tudo idêntico ao fato dos surfistas. Que se proíba alguém de tapar a cara terá todo o meu apoio. É uma questão de segurança e nem sequer pode ser questionado em termos religiosos. O Islão não obriga a tapar a cara nem as mãos. A obrigação é um hábito cultural que nós consideramos um abuso. Quem não quiser ser visto, fique em casa.
Outra coisa é obrigar alguém a despir-se. Tenham paciência. Quem defende tal coisa só pode ser um idiota. Repito: IDIOTA, com todas as letras. Eu quero ter o direito de ir à praia de calças, meias e sapatos e camisola de gola alta, embora as não consiga usar, e de barrete enfiado na cabeça. É assim, aliás, que vejo muitos pescadores na nossa praia da Foz do Arelho.
Há muitos anos, quando era jovem adolescente (foi há tanto tempo), li um conto de Edgar Alan Poe cujo título era “The Sistem of Dr.Tarr and Prof. Fether”. Apesar do título e da cidadania americana do escritor, a história passa-se no Sul de França. Não imaginava eu que tantos anos depois o Sul de França me trouxesse à lembrança aquele conto. Nele, que traduzido dá: “o sistema do Doutor Alcatrão e do Senhor Pena”, Edgar Poe conta-nos a história de um manicómio onde se tratavam os idiotas com demasiada brandura. De tal forma que não tardou que os idiotas tomassem conta do hospital e prendessem os sábios, tratando-os a alcatrão e penas. Foi o que nos aconteceu. Os idiotas tomaram conta disto tudo e transformam este mundo num imenso manicómio. Se duvidam leiam as últimas sobre a nomeação dos gestores da CGD.
Apetece-me terminar como termina o conto de Egar Poe referindo-se ao sistema de alcatrão e penas, mesmo correndo o risco de vos dar ideias sobre o tratamento a dar aos idiotas que nos governam, aqui e no Mundo!
“… um sistema verdadeiramente excelente, de facto...  simples… asseado… sem complicações … delicioso deveras… Era…”

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O QUE PENSAM OS MORTOS?


Talvez não erre se disser que até ao aparecimento da besta, ou balestra, a guerra fazia-se à custa da força, perícia e destreza dos soldados que nela participavam.
Vem isto a propósito por estar a escrever no dia em que se comemora mais um aniversário do lançamento da bomba atómica sobre Nagasaki. Os que defendem que o uso das bombas atómicas no Japão evitou maior número de mortos, argumentam que os japoneses jamais se renderiam em caso de uma invasão terrestre. Os que argumentam em sentido contrário dizem, e entre eles nomes sonantes do aparelho militar americano como Eisenhower, que o Japão estava derrotado e render-se-ia se lhe dessem a oportunidade de salvar a face. Os termos em que foi escrito o ultimato de Potsdam indicava a incondicionalidade da rendição, excluindo, portanto, o Imperador. Depois das bombas a rendição deu-se condicionada à manutenção do Imperador, o que reforça o argumento dos que vêm na inépcia do texto de Potsdam a causa da não rendição do Japão, tornando desnecessária, inútil e cruel, o lançamento das bombas.
Há que referir, no entanto, uma questão que nunca é lembrada nestas ocasiões e que poucos conhecem, e que é referida como argumento a favor do lançamento sobre Hiroxima e Nagasaki: o bombardeamento “convencional” de Tóquio meses antes das bombas atómicas, e cujos danos materiais e humanos foram superiores ao das bombas atómicas. Então porque razão as bombas atómicas nos deixam com um repúdio generalizado?
Voltando às bestas, saiba-se que a Igreja, logo no século XII, proibiu o seu uso em guerras entre exércitos cristãos, ordem que, à semelhança da pílula e do preservativo, foi alegremente desobedecida e ignorada por todos. Que se matassem uns aos outros, tudo bem, mas sem aquela arma terrífica, queria a Igreja. E porque era terrífica? Julgo que o problema é o mesmo do das bombas atómicas. A sua grande eficiência. Uma grande eficácia com poucos recursos. O combate feito à custa da força dos soldados parece legitimo. Feito à custa de recursos além da força muscular parece coisa do demónio. Se o argumento valia para o uso das bestas, para o confronto entre bombas atómicas e bombas incendiárias não vale. É só uma questão de custos financeiros.
Em todo o caso, julgo que o vaticínio de Einstein se cumprirá e a força física vingará: a 4ª guerra mundial será feita com pedras e paus!
O que pensarão os mortos?

sábado, 6 de agosto de 2016

NÃO HOUVE CARNAVAL NO RIO


Não houve "só" carnaval! Quem estava à espera de um corso carnavalesco, ou quem apostava no desaire desta organização dos jogos olímpicos no Rio de Janeiro, desenganou-se. O Brasil está de parabéns!
O espectáculo de abertura pautou-se pela singeleza elegante, de extremo bom gosto, onde o Povo foi protagonista sem nunca se cair no cliché etnográfico, folclórico ou carnavalesco. A simplicidade, elegância e a musicalidade com que se cantou o hino Brasileiro, recorrendo ao mais popular dos instrumentos brasileiros, o violão, foi um extraordinário momento de bom gosto, a que se somou a homenagem à beleza, e sensualidade, porque não dizê-lo, da mulher, numa época em que se tenta apagar toda a diferença sexual. O Brasil é isso: calor, sensualidade, natureza, ritmo, cor, música e modernidade. O recurso às novas tecnologias, o alinhamento, o ritmo e a magnífica encenação, deixaram-me preso à televisão. Não fossem os disparates dos locutores da RTP 1 que não conseguem estar calados quando não há nada para dizer, e teria sido um espectáculo televisivo perfeito.
Houve samba? Houve. Na entrada dos atletas brasileiros, numa apoteose de juventude, e no final, até houve carnaval, numa explosão de cor e alegria.
Houve notas discordantes? Houve. No camarote presidencial! Aquele rosto fechado e comprometido discordava de toda a alegria de um Povo.
Parabéns Brasil, e que Portugal conquiste muitas medalhas, porque uma já tem: a dos primeiros jogos olímpicos falados em português.

terça-feira, 26 de julho de 2016

OS TURCOS E OS GATOS


A única tirania que suporto é a que os meus gatos exercem sobre mim. Partilho com os muçulmanos este amor pelos gatos. Conta-se que o Profeta Maomé, que a paz e bênção de Alá estejam sobre ele, ao ouvir o chamamento à oração, cortou a manga das suas vestes para não incomodar o gato que adormecera sobre ela. Além do amor pelos gatos partilho com o Islão, o gosto pelo convívio da rua. Intriga-me a relação dos homens com a mesquita e com a oração, e o canto do muezzin no alto dos minaretes, maravilha-me. Entre mim e o Islão vai, no entanto, a diferença entre a carta aos Coríntios de S. Paulo (Tudo me é permitido, mas nem tudo é conveniente… 1 Cor 6, 12), a carta aos Romanos (É na nova existência do Espírito que somos servos e não na existência caduca da letra da lei. Rm 7,6) e a tirania da Charia.
Quando visitei Istambul fiquei maravilhado com os gatos da cidade. Há-os por todo o lado. Nas ruas mais movimentadas, nos cafés, nos museus, dentro da própria Hagia Sophia, nos cemitérios. Ao contrário do mundo católico, que pela pobreza de espírito de um Papa os associou à bruxaria, o mundo islâmico reconhece a nobreza do gato aparentado com o leão, a sua limpeza e o seu inestimável serviço como guardião de celeiros. O amor pelos gatos levou os turcos a fundar hospitais para os tratar. Seguindo o conselho de Mark Twain, outro amante de gatos, dispus-me logo a considerar os turcos como amigos e companheiros (quando um homem ama os gatos, torno-me de imediato seu amigo e companheiro sem precisar de qualquer apresentação).
Foi também por isso, pelo respeito aos turcos, amantes de gatos, que visitei o túmulo de Maomé II, o conquistador de Constantinopla, junto à mesquita de Fatih, apesar de representar, na História, “o inimigo”. No tempo em que o Islão era um elemento civilizador, Maomé II conquistou a última capital do velho império romano cujos defensores perdiam tempo discutindo o sexo dos anjos (como hoje). Ao entrar na Igreja de Hagia Sophia, deitou terra sobre o turbante em sinal de respeito. Depois, e sendo ele próprio descendente de princesas gregas, casou com uma fidalga grega (bizantina), deu cargos importantes aos sobrinhos e herdeiros do último imperador bizantino (seus potenciais opositores), chamou a população em fuga e nomeou o patriarca cristão ortodoxo, governador da cidade. Sendo já sultão dos muçulmanos, entendeu manter a grandeza de Roma autoproclamando-se César de Roma, soberano supremo dos cristãos. Não podia deixar de prestar a homenagem devida a tão grande homem. O Islão carece de homens assim. A cristandade (ou o ocidente) também.
Ao contrário de o conquistador de Constantinopla, que soube transformar inimigos em companheiros, Erdogan elimina inimigos e imagina opositores. O seu autoritarismo chega ao ponto de querer acabar com os gatos nas ruas de Istambul.
Erdogan não gosta de gatos!

imagem: cemitério dos monges derviche do mosteiro Mevlevi (sufi) em Galata (Istambul) 

quinta-feira, 21 de julho de 2016

QUEM PASSA POR ALCOBAÇA, NÃO PASSA PARA ROUBAR. OU PASSA?


Gosto muito de hotéis. E também de monumentos. Juntar hotéis e monumentos não é uma ideia nova em Portugal. Desde 1950 que o conceito de pousadas históricas existe com grande apreço da população e da crítica. O Smithsonian Foundation atribuiu às Pousadas de Portugal o prémio anual pelo papel preponderante na defesa do património cultural e do ambiente para fins turísticos.
O mosteiro de Alcobaça, com mais de 800 anos, tem um papel mais do que simbólico na fundação do nosso país, que é pouco reconhecido pelas autoridades e pela população em geral. Para lá da sua importância na fundação e defesa do Estado Português, é lá que está o símbolo maior do nosso amor: os túmulos de Pedro e Inês. Mas representa também o primeiro e, durante muitos anos, o único exemplar da arquitetura gótica. Para além do monumento, a presença dos seus monges na região deixou marcas na agricultura e na engenharia hidráulica.
A brancura das suas pedras, os seus vitrais sem cor, e a falta de ornamentação (se exceptuarmos os túmulos) convidam-nos à ascese. Esse ascetismo obrigou, em remodelações recentes, a uma envolvência exterior despida de ornamentos que não foi compreendida pela maior parte da população que gosta de jardins barrocos. Desconhece, a população e alguma elite, que aquela “limpeza” e despojamento fazem parte da matriz de Alcobaça assente na reforma cisterciense, resumida na sua legenda beneditina: ora et labora (reza e trabalha).
Obras de restauro e adaptação, sempre as houve. A cozinha de Alcobaça, que faz as delícias dos visitantes, não é, ao contrário do que se julga, medieval, mas do século XVIII. Instalar um hotel numa ala e claustro onde ninguém vai e onde ninguém está disposto a investir o dinheiro dos contribuintes, mesmo aqueles que agora rasgam as vestes em protesto, parece-me bem.
Se a Ordem de Cister, fundadora do mosteiro, era, e é, austera e despojada, um Hotel de 5 estrelas não pode sê-lo. 90 quartos de luxo numa terra pequena como Alcobaça só se garantem à custa do prestígio das pedras que os rodeiam e que são de todos nós. Andarmos a trabalhar para o lucro dos outros sempre com o Credo na boca, tal como os monges de Cister, não! Devemos lembrar que esses monges, para além de rezarem e de trabalharem, também pegavam em armas para expulsar os mouros que lhes roubavam as searas.

Pagar 5 000 euros anuais por aqueles claustros, o mesmo (ou menos) que para uma renda de casa familiar, parece-me um despojamento do Estado que deve merecer o nosso mais vivo repúdio, senão mesmo investigação criminal. É que me parece um roubo!