sábado, 19 de setembro de 2020

DEPOIS, VAI-SE A VER E NADA!

 



Eu gosto da Dulce Pontes e do Énio Morricone, mas não trocava Mozart pelos dois. No programa de televisão, “Depois, Vai-se a Ver e Nada”, falava-se de Enio Morricone e como Dulce Pontes cantou com ele. Dulce Pontes, salientando a importância do seu encontro com o compositor, disse que o Énio era “o último grande compositor que está ainda vivo” (sic) (o programa é gravado), ao que José Pedro de Vasconcelos ripostou com a seguinte pérola: - pois o Énio é como o Mozart do século XXI, e Dulce Pontes rematou que sim, mas que “Mozart ao pé dele é um bocado chato”, e pediu perdão aos amantes do Mozart! Perdoo, mas não esqueço.

Eu gosto muito das bandas sonoras que o Énio Morricone fez para grandes filmes. Talvez esses filmes não tivessem tido a projeção que tiveram sem a música do Énio, e talvez a música deste nunca se ouviria sem os filmes que musicou. Mas muitos cineastas correram a pôr Mozart nas suas bandas sonoras, sem que este soubesse o que era um filme. John Barry, por exemplo, fez a lindíssima banda sonora de África Minha (o voo sobre os flamingos, lembram-se), e colocou lá o famoso concerto para clarinete do Mozart (que chatice, não foi?).

No tempo de Mozart havia imensos compositores muito bons, como hoje há muitos compositores como o Énio e que continuam vivos, e que deixarão a sua marca na História da Música, como o Énio deixou. Podiam ter escolhido um dos outros compositores contemporâneos do Mozart, Salieri, por exemplo, ou Francisco António de Almeida para a comparação com o Énio. Dizer que o Énio é o Mozart do nosso tempo é dizer que não há outro melhor no nosso tempo, e isso é um disparate, porque há tão bons ou melhores que foram seus contemporâneos: “Olá Britten e Messiaen, olá Arvo Part, como vai o paraíso Nino Rota e Maurice Jarre?” Alguns já morreram, mas continuam vivos: Yann Tiersen (Amelie), Nicola Piovani (A vida é bela); Hans Zimmer (rei Leão e Gladiador), Vangelis (Carros de Fogo, Blade Runner, Conquista do Paraíso)…. É que o Mozart era o melhor do seu tempo, e era o tempo do Haydn (!), e marcou a História da Música porque a revolucionou, ao contrário de Énio que foi um compositor de continuidade.

A música de Mozart não precisou do Énio Morricone para nada, mas a música de Morricone tem lá o Mozart todo dentro (o clarinete com a orquestra, por exemplo no Cinema Paraíso).

Chato por chato, umas Bodas de Fígaro, com a diversidade do canto das suas personagens (que Morricone copia com o bom, o mau e o feio) durante duas horas e meia sabem-me sempre a pouco (e nunca é chato nem monótono), enquanto uma hora de Morricone dão-me sono, apesar de achar muita piada ao uivar do coiote feito pela flauta, pela ocarina e pela voz (The good, the bad and the ugly), mas ao fim de algum tempo já apetece que alguém dê um tiro ao coiote. É que Deus é Deus, e o Santo António é só o santo António porque anda com Deus ao colo, como a Dulce Pontes não é Amália, apesar de ter cantado a Canção do Mar e ter conhecido o Énio Morricone.

Pronto, está perdoada, e desculpem a chatice…


sábado, 2 de maio de 2020

A BANDEJA



No filme Brexit, recentemente exibido na TV, há uma cena em que o ideólogo da campanha, a favor do Brexit, se ajoelha numa rua de um bairro social para perceber que o barulho que ele ouve vem das profundezas da Terra. A Esquerda e o Centro, vivem atualmente numa bolha que os impede de ouvir esse ruído que vem do fundo da realidade. Foi essa bolha em que vivem, que os fez transformar as celebrações de Abril e de Maio deste ano, na bandeja com que carregam os valores da Liberdade e da Democracia para os entregar nas mãos dos seus inimigos. 

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

SERÁ O LIVRE UM PARTIDO NEOCOLONIALISTA, RACISTA E PIDESCO?



Que Portugal, a exemplo de outros países europeus, equacione a devolução de património dos territórios outrora colonizados parece me bem. Que essa equação seja desenhada com os governos desses países, ponderando os prós e contras da devolução de um património que sendo deste ou daquele país africano é, no entanto, património da nossa história comum, que merece ser estudado, analisado e investigado, ponderando-se qual o melhor local para o depósito do mesmo para que se torne acessível ao maior número de interessados, parece-me uma atitude inteligente. Gostaria de ter ouvido a deputada do Livre propor formas de cooperação com os governos dos países africanos, nomeadamente para o desenvolvimento de estudos africanos nas universidades, cá e lá, mas tal não aconteceu. Infelizmente o nível da generalidade dos nossos deputados é mau e Joacine, deputada do Livre e cidadã Portuguesa, não foge à regra. Em sede de discussão orçamental faz propostas sem cabimento nessa discussão, substituindo-se aos governos dos países africanos num paternalismo neocolonial de quem se julga na necessidade de defender os interesses dos povos representados por esses governos como se não lhes reconhecesse capacidade para tal tarefa, como outrora se justificava o colonialismo.
Não contente com o despropósito neocolonial, a proposta aponta para uma “Comissão multidisciplinar composta por museólogos, curadores, investigadores científicos (história, história da arte, estudos pós-coloniais e decoloniais) e ativistas anti-racistas…”(sic). Ora a presença de ativistas de qualquer espécie numa comissão que se quer científica só pode significar o pendor inquisitorial e “disciplinador” sobre o pensamento desses cientistas, cabendo aos ativistas verificar o que se pode e não pode dizer, como se de uma pide se tratasse. Nenhum cientista que se preze poderá fazer parte de uma tal comissão.
Na mesma proposta o Livre afirma que aquela comissão deve ir “no sentido de estimular uma visão crítica sobre o passado esclavagista colonial”. Não tendo eu dúvidas sobre a responsabilidade esclavagista colonial do meu país, não vejo que uma comissão que devia ser bilateral, entre a potência colonizadora e os ex-colonizados, deva deixar fugir a oportunidade para estimular também uma visão crítica sobre o passado esclavagista dos potentados africanos de então, pelo que só posso entender a proposta do Livre como profundamente racista.
Goste-se ou não, foram as potências colonizadoras quem pôs fim à escravatura pois esta desonrava os valores que o Ocidente colonizador defende e defendia e que deixou como património aos países colonizados. Uma visão crítica sobre a responsabilidade dos potentados africanos não só é precisa como é necessária, promovendo a igualdade.
Apesar de tudo, e ao contrário do que se disse, há património que eu, como português, não aceito devolver: a riqueza étnica e multicultural que o colonialismo nos trouxe. Joacine é portuguesa e não se devolve. Mas como deputada de uma nação que honra o seu passado, responsabilizando-se pelo que fez de mal e orgulhando-se pelo que fez de bem, tem de perder os tiques neocolonialistas, racistas e pidescos.

sábado, 16 de novembro de 2019

A INJUSTIÇA DAS HOMENAGENS


A 20 de maio de 1977 o Coliseu dos Recreios de Lisboa vinha abaixo por causa da “cena da loucura” da ópera Lucia di Lamermoor de Donizetti, uma ária de exigência superior cantada e interpretada por Elizette Bayan. Como refere a crónica do Diário de Notícias da altura, foi de tal forma que o próprio Alfredo Krauss, o grande e famoso tenor espanhol que a acompanhava, no próprio palco e no meio da cena, resolveu aplaudir também. Cinco meses depois tive a graça de a ouvir e ver em Coimbra, na mesma ária e ópera, agora já sem Krauss, que o dinheiro em Portugal nunca chega à Província, com o teatro Gil Vicente a vir abaixo com os aplausos e com espectadores de lágrimas nos olhos. Era uma cantora portuguesa. Uns meses antes, a canção “Portugal no Coração” com música de Fernando Tordo, cantada pelo grupo “Os Amigos” ganhava o Festival da Canção.
No programa de sala daquela noite memorável no Gil Vicente de Coimbra, que guardo religiosamente, nada diz sobre a biografia daquela grande cantora. Voltei a ouvi-la mais vezes. Na rápida pesquisa na net soube que foi condecorada por Sampaio e pronto. Desconheço se ainda está entre nós, porque no coração de quem a ouviu está com certeza.
O teatro Nacional de São Carlos, a casa que em Portugal representa a excelência do canto, onde ela foi a cantora principal, recebe hoje Fernando Tordo, um cantor que, zangado com Portugal porque, na opinião dele, o votava ao esquecimento, rumou ao Brasil na altura Meca para alguns artistas vitimados e injustiçados desta Nação. Agora que aquela Meca foi invadida por hordas “almorávidas” acolhem-se de novo ao coração da Pátria.
Portugal tem hoje muitos e bons cantores de música popular que aprenderam com Fernando Tordo e, superando o mestre, ganharam o Festival da Eurovisão. Na ópera, jovens cantores fazem já percursos notáveis e a seguir, mas nenhum, que eu saiba, se atreve à Lucia. Fico à espera que Elizette Bayan, se ainda cá estiver, seja um dia convidada a subir ao palco do São Carlos para ouvirmos a orquestra tocar para ela, como vai hoje fazer para Fernando Tordo. E, já agora, a Elsa Saque, a Zuleika Saque, a Palmira Troufa, o José Fardilha, o Jorge Vaz de Carvalho, e tantos, tantos outros, e já não vão a tempo do grande Álvaro Malta.

domingo, 27 de outubro de 2019

NÁPOLES



Em jeito de crónica de viagem, ensaiei com Istambul a escrita de impressões de viagem, porque tudo já foi dito. Com Nápoles o assunto torna-se mais difícil pois o que tinha para dizer já Goethe o escreveu. Como ele, apaixonei-me pela cidade e pela sua localização. Stendhal afirmou que só duas cidades na Europa mereciam uma visita: Paris e Nápoles. Embora meridional não chego a esses arrebatamentos e fico-me pela sobriedade germânica de Goethe: “limito-me a escancarar muito os olhos.”[1]
Se falo de Nápoles, tenho de juntar todo o litoral do golfo entre as ilhas de Ischia e Capri, com Sorrento a falar da paixão do Vesúvio pelo golfo, ou não fosse Vulcano casado com Vénus nascida da espuma das ondas do mar. Sorrento, Capri e a costa formada na vertente contrária à do Golfo, a que chamam amalfitana, é residência de deuses, mas o litoral plano junto ao Vesúvio e a cidade de Nápoles nas encostas a norte de Sorrento, distando desta 26 quilómetros em linha reta e 50 por estrada, é bem humana na sua velhice e decrepitude a que o mau gosto da modernidade dos prédios, das auto estradas e dos painéis publicitários, emprestam ares de adolescente mas não escondem que estamos à porta do paraíso, onde será preciso voltar para admirar com outras calmas, os jardins de Ravello, inspiração de Wagner, e as penedias de Capri onde Tibério, em cujo reinado Cristo foi crucificado, se refugiava com medo que o assassinassem fazendo-se rodear de jovens e crianças, quais faunos e ninfas, em orgias inimagináveis mesmo nos dias de hoje, lembrando que nem a paisagem, o ar límpido e sereno e o azul do mar acalmam os ardores lúbricos de velhos devassos.
“Bem podemos dizer, contar, pintar o que quisermos”[2], o que se vê, como escrevia Goethe, é mais que tudo isso. “O napolitano julga estar na posse do paraíso”[3] e tem toda a razão para o crer.
 E chegam os que me leem a Nápoles e dirão que minto. Então e o lixo espalhado pelas ruas? As paredes grafitadas? Os prédios apalaçados a caírem decrépitos? O trânsito caótico e a falta de respeito pelo peão? A horda de turistas por todo o lado? A população ruidosa e humilde que nos faz imaginar receios de rapina? E eu respondo que sempre imaginei as portas do paraíso a abarrotar de gente alegre, animada, ruidosa, ricos e pobres à espera de entrar. E se o Vesúvio fizer ameaças corre-se em socorro dos milagres do sangue de San Gennaro ali ao pé.
É pelo meio das ruas escuras, apertadas e sujas que entramos na capela de San Severo para o deleite estético de ver o mármore transformado em véu deixando que Cristo mostre as suas chagas e todo o sofrimento que transparece da sua carne e das suas veias que juramos vermos ainda palpitar, e que nenhum outro Cristo nu consegue mostrar mais do que aquele, tapado pelo mármore. Bruxaria, apetece repetir. É nas suas ruas decrépitas que vemos um palácio velho e sujo, onde na sua capela encontramos dois anjos lançarem as suas asas e braços para fora da tela segurando a Senhora da Misericórdia. Caravaggio, foragido e assassino aqui se acoitou para pintar uma tela que hoje jamais os irmãos da Santa Casa se atreveriam a pagar a encomenda e a exibi-la, já que somos mais puritanos que nos tempos em que os homens piedosos pagavam a bêbados briguentos, libidinosos e assassinos para pintarem a Madonna.
No intricado das suas ruas escuras vemos os velhos beijarem as bochechas dos amigos, como as tias aos sobrinhos, mas também o gesto respeitoso do jovem que passa as costas da mão pela barba de um homem para de seguida beijar essas costas da mão, num sinal silencioso das intricadas redes sociais humanas que não entendemos. No pobre bairro espanhol encontrámos a cozinha da mamma, onde um napolitano cosmopolita nos recebe de braços abertos, como se fossemos família.
Mas é preciso subir ao miradouro de São Martinho, junto ao castelo de Sant’ Elmo para perceber em baixo o enorme campo de penitentes olhando o paraíso que se estende pelas costas do Golfo guardado pela forja de Vulcano. E perceber como uma rua escura, comprida e estreita ali se marca mais visível que as avenidas, como verdadeira artéria daquele corpo estranho que é a cidade de Nápoles: a Spaccanapoli.
O trânsito é caótico, mas o buzinar passa rápido da impaciência para a saudação alegre e prazerosa, ou não fosse esta a terra de polichinelo: “Fomos em duas caleches porque não nos arriscávamos a conduzir nós próprios no meio da grande confusão desta cidade”[4], já era assim antes da invenção do automóvel e da scooter. Visitámos a Chiaia com as suas montras, em noite de Lua Cheia como calhou em sorte a Goethe mas que nos escapou, e a rua de Toledo continua cheia de gente às compras. O San Carlo, o teatro mais antigo da Europa, estava para obras e escondeu-nos a sua fachada neoclássica. Não entrámos pelo que nem os olhos se deslumbraram nem a alma ficou arrebatada como aconteceu a Stendhal.
“Vedi Napoli e poi muori”[5]. deixou-nos Goethe este ditado popular napolitano, mas nós saímos com a vontade de que se realize como profecia o sentimento do pai de Goethe que “nunca poderia ser infeliz porque se lembrava sempre de Nápoles”[6].




[1] Goethe, 2018. Viagem a Itália. Bertrand Editora, Lisboa, p. 249
[2] Ibidem, p. 249
[3] Ibidem, p. 247
[4] Ibidem, p. 257
[5] Ibidem, p. 253
[6] Ibidem, p. 249

segunda-feira, 13 de maio de 2019

GRETA THUNBERG E O HOMEM QUE FOI AO INFERNO


Greta Thunberg não percebe coisa nenhuma de ambiente ou de alterações climáticas. Isto é, percebe o que todos percebemos por ouvir e ler nos media falar-se do assunto. Então por que carga de água os parlamentos, incluindo o português, acharam por bem convidar uma adolescente que teve a ideia pateta de que umas greves às aulas fariam os governos serem mais proativos na defesa das políticas públicas para combate às alterações climáticas? Por que querem os parlamentos ouvir da boca de uma adolescente dizer que eles, deputados, são uns totós presumidos que não conseguem, ou não querem, que as políticas já previstas nos programas nacionais e internacionais de combate às alterações climáticas sejam postas em prática (os programas e planos políticos já existem e são óptimos).
É que não há nada que Greta Thunberg tenha para dizer que já todos não saibam: que nem os governos, nem nós, nem os estudantes que fazem a greve, temos vontade de baixar o nosso nível de crescimento, conforto e estilo de vida, para o combate às alterações climáticas. Que um dia teremos de o fazer não tenho dúvidas, mas nessa altura forçados pelas circunstâncias que a isso nos obrigarão, como o homem que chegou ao Inferno. Até lá assobiaremos para o ar.
Tudo se parece com aquela história bíblica em que um homem muito mau morre e vendo o que lhe reserva o Inferno, apiedado dos seus familiares e amigos (não era tão mau assim), pede a Deus que o deixe correr de novo à Terra para os avisar do perigo em que incorrem, se não se arrependerem, ao que Deus lhe responde: “mas eu já enviei tantos profetas a dizer o mesmo e eles não fizeram caso, porque julgas que te ouviriam?”
O protesto de Greta Thunberg é o grito de alerta. Para ser eficaz devia ela própria recusar-se em participar na fantochada do discurso em parlamento, porque os convites são para isso mesmo: tornar irrelevante o seu grito.
Ao contrário da Bíblia, onde só os maus vão para o Inferno, nesta coisa do clima vão os bons e os maus, incluindo a Greta, e é por isso que ela grita. Os políticos fingem que a ouvem, para ver se ela se cala, como fizeram aos profetas. A história já foi contada!

quarta-feira, 17 de abril de 2019

NOTRE DAME E AS CRIANCINHAS EM ÁFRICA



A ver se a gente entende: doar milhões de euros para a reconstrução de Notre Dame, resolve o problema da reconstrução de Notre Dame.
Doar milhões de euros para acabar com a fome em África não resolve o problema da fome em África. Só adia a resolução desse problema. A fome em África resolve-se com políticas de paz e de gestão de recursos. Não é uma questão de dinheiro, mas de boas ideias e de boa vontade: que não há.
Reconstruir Notre Dame não é reconstruir uma igreja. Igrejas há muitas e Deus não precisa de templos (nós precisamos). Eu, que sou católico, talvez só desse dinheiro para a igreja da minha comunidade, não para a “igreja” de Notre Dame se só estivesse em causa a reconstrução de um lugar para o culto. Mas reconstruir Notre Dame é salvar o património da humanidade, de crentes e não crentes. É salvar a história de 1000 anos da civilização europeia, da nossa história comum, dos nossos valores: dos valores capazes de salvar da fome as crianças de África. É salvar a história da arquitetura, da engenharia e da arte. É salvar a nossa memória que gostamos de imaginar eterna!  
Morrer, todos morremos. Uns mais cedo que outros, mas todos iremos. Na televisão uma mulher chorosa dizia que o que mais lhe custava era pensar que já ali não poderia entrar mais pois não tinha tempo de vida para ver as obras acabadas. Por isso gostamos de pensar que a nossa memória é eterna. Por isso sentimos vontade de reconstruir Notre Dame, para que seja aparentemente eterna, porque nós não somos.
Misturar fotos de Notre Dame a arder com criancinhas a morrer de fome e comparar doações, é só presunção beata, para não dizer pateta e estúpida. As pessoas que fazem isso seriam talvez as primeiras a protestar se algumas medidas de fundo, necessárias, tivessem que ser tomadas para salvar da fome as crianças de África, porque aí é que lhes iam ao bolso e aos privilégios.

sábado, 26 de janeiro de 2019

PORQUÊ "CHEGA"?



O que se pode esperar de um partido com o triste nome de “chega”? Sinónimo de coisa pequenina só pode sair da cabeça de um homem ou de uma mulher pequenino/a. Se eu fizesse um partido chamar-lhe-ia, “MAIS”, “FARTURA”, sei lá, mas “chega”?
E o que pretende este “chega”? Encontrar o melhor modo de fazer a coesão social e cultural dentro da Nação? A melhor forma de se chegar a uma redistribuição justa da riqueza gerada pelos trabalhadores do país? A fórmula de preservar o ambiente dentro do quadro de um desenvolvimento sustentável, isto é, a forma para encontrar o justo equilíbrio entre o desenvolvimento social e o desenvolvimento económico num quadro ecológico de forma a suprir as nossas necessidades sem comprometer as das gerações futuras? Não sabemos. O que sabemos é que pretende baixar o número de deputados para 100, introduzir a prisão perpétua e capar os pedófilos. Se estes são os problemas que os fundadores do “chega” acham que o país tem é porque não conhecem o país.
100 deputados? Por que não zero? O que o “chega” pretende dizer é que os deputados não estão lá a fazer nada, então tenha a coragem de propor zero. Eu acho que estão. Tendo em conta que Portugal apesar de pequeno é um país de grandes assimetrias regionais, culturais e sociais, 100 deputados não são suficientes para refletir essas assimetrias e garantir a voz dos que em democracia se têm de ouvir: as maiorias, mas também as minorias. A constituição prevê um mínimo de 180 e um máximo de 230. Atualmente são 230. É capaz de ser muito. Por que não propuseram 180? Porque 100 obriga à revisão constitucional e assim podem manter a sua bandeira populista e demagógica à falta de ideias melhores e de coragem de clamar pelo fim da representatividade parlamentar?
Prisão perpétua. Se é para prevenir a criminalidade os factos desmentem-no. Os países que têm prisão perpétua e pena de morte são os que têm maiores índices de criminalidade. Se é para defender os cidadãos de psicopatas, a Constituição já o prevê: prisão prorrogada sempre que necessário, diz a constituição. É mais uma ideia de quem não tem ideias.
Castração química para pedófilos. A pior coisa que podemos esperar de um partido político é que se intrometa nas questões de ordem científica, à moda do que fizeram e fazem certas religiões. A pedofilia é o abuso de crianças impúberes, por isso considerada uma doença que requer tratamento. Se a castração for o tratamento que a ciência achar adequado, promova-se então o debate, mas não pode ser bandeira para partidos políticos.
O fundador do “chega” diz que as minorias étnicas têm um problema de integração, e tem razão. Mas não basta afirmá-lo, é preciso trabalhar com essas minorias, fazê-las assumir que o problema existe e que a solução só pode vir de ambos os lados e não de um só. André Ventura tem aqui razão. Mas ele foi eleito vereador num concelho onde há grandes e graves problemas na integração de minorias étnicas. Foi-lhe dado pelo voto uma excelente oportunidade para pôr em prática as ideias que não tem para a solução do problema. Uma coroa de glória para quem se diz católico e cristão, como ele, mas não. André Ventura resolveu desistir: demitiu-se e disse “chega” sem sequer ter tentado. 

sábado, 20 de outubro de 2018

AMSTERDÃO


Na praça Rembrandt, uma menina toma-se de amores por outra, de bronze, da imitação da “Ronda da Noite” ali lembrada. Fica, de mão dada, conversando com aquela amiga inusitada, protegendo-a dos rapazes que ensaiam lutas de fusil excitados com a preparação dos soldados ali representada, alheios, escultura e menin@s, a ideologias de género. Estamos perante uma obra de arte mesmo que a imitar a original encerrada no museu: os miúd@s gostam!
O que se há de escrever sobre Amsterdão, cidade cujos objetos mais icónicos são a bicicleta, a estação de comboios central, as putas nas montras e o olhar basbaque dos americanos arrependidos de terem substituído Amsterdão por Iorque ao nome da sua maior e mais famosa cidade? Não fosse Van Gogh, Rembrandt e a sala do Concertgebouw com a melhor acústica do mundo e Amsterdão era uma cidade perdida, afogada por hordas de turistas que a transformam numa imensa feira popular. Nas lojas decoradas por lustres brilhantes lembrando aos distraídos o brilho dos diamantes que lhe suja as mãos (e a alma), discute-se a idade dos queijos à venda como quem discute a velhice de um borgonha ou de um porto, esquecendo que uns nasceram do fel de uma cabra e que os outros saíram da rocha nobre doirada ao Sol. Que o queijo e o vinho fazem um casamento perfeito, fazem, mas Amsterdão bebe cerveja e fuma erva.
Sem traços de fidalguia, que a cidade é burguesa e protestante, Amsterdão é linda, simpática, acolhedora, que rapidamente substitui o dialecto local da língua neerlandesa pelo inglês para agradar e receber o estrangeiro. De fachadas simples e estreitas debruçando-se (literalmente) sobre a estreiteza das ruas ladeadas por canais à guisa de uma Veneza sem palácios, encheu-se de flores coloridas, muitas flores, e patos, e cisnes nadando nas águas escuras de aparência metálica. É um gosto passear por Amsterdão!

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

LAS VEGAS E AS VISTAS DAS FLORESTAS


Um reformado dos bombeiros com mulher e dois filhos, e sem que a mulher tenha trabalhado, consegue ter uma casa de luxo com piscina e vista privilegiada num dos bairros mais exclusivos de Las Vegas. O salário mínimo de um espanhol ficará somente 95 euros abaixo do salário de início da carreira de técnico superior da função pública em Portugal.
Era isto que eu gostaria de ver discutido e não as loucas festas que acontecem nas penthouse dos hotéis de Vegas, onde os índices elevados de testosterona (responsáveis pela agressividade masculina mas também pelos bons resultados desportivos) misturados a álcool desaconselham a subida para ver as vistas a escuteiras com défices de atenção (deve ser um fetiche isto das vistas em Vegas), porque toda a gente sabe que uma penthouse em Vegas é o ersatz da floresta do capuchinho vermelho e do lobo mau (Las Vegas fica num deserto, tanto figurado como real).
Como não faço tenção de ir a Vegas ver as vistas sobre o deserto, preferia ver discutido o meu salário e a minha reforma para uma vida modesta com vista sobre a auto estrada.

sábado, 22 de setembro de 2018

LÍDIA JORGE: IGNORÂNCIA OU PRECONCEITO



Ontem, já no adiantado da noite, de regresso a casa ouvi, através do rádio do carro, na Antena dois, Lídia Jorge afirmar que Fernão de Magalhães lutara contra várias forças que se opunham à sua viagem contando-se entre elas a Igreja que à data, no dizer da escritora, advogava que a Terra era plana. Fiquei siderado com a ignorância demonstrada pela professora e escritora.
Bem sei que Lídia Jorge não é professora de ciências, mas cursou filologia românica pelo que estudou latim, literatura e os aspectos culturais dos Povos. Era suposto que soubesse mais sobre a história da Igreja, determinante na vida e cultura europeias, e a sua acção em prol da Ciência desde logo com a fundação da Universidade. Ficou-me, no entanto, a dúvida se o erro crasso se devia a ignorância se ao preconceito se a ambos.
A esfericidade da Terra está estabelecida desde, pelo menos, o tempo dos gregos, tendo Aristóteles, sábio que a Igreja sempre prezou e divulgou, referido o globo terrestre no seu tratado “Sobre o Céu”. Erastóstenes (276 aC-194 aC) chegou mesmo a calcular a sua circunferência que se provou estar muito próxima à calculada pelos modernos instrumentos da nossa tecnologia. Estrabão, um geógrafo grego, chegou a afirmar que um navegador poderia chegar à Índia saindo de Espanha e navegando para Oeste em uma semana! Santo Ambrósio e Santo Agostinho referem-se à esfera terrestre e o monge cristão Cassiodoro obrigava os monges à leitura de Ptolomeu com as suas considerações sobre a esfericidade da Terra. Tudo isto antes do ano 1000 da nossa era. Depois veio Bacon, Alberto Magno e João de Sacrobosco que escreveu o “Tratado da Esfera”. Cristóvão Colombo acabou por ler isto tudo no conjunto de tratados sobre a esfericidade da Terra escrito pelo cardeal Pierre d’Ailly (que afirmava a rotação da Terra antes de Copérnico). Portanto não só a Igreja acreditava na esfericidade da Terra desde o tempo dos seus primeiros pensadores como essa crença influenciou e levou à viagem de Colombo. E aqui demonstra Lídia Jorge a sua grande ignorância quando fala sobre o assunto. É que se dúvidas pudesse haver sobre a esfericidade da Terra elas colocar-se-iam antes da viagem de Colombo e nunca antes da viagem de Magalhães trinta anos depois.
Se Lídia Jorge, por preconceito ou outro motivo qualquer, não se interessa pela história da Igreja, podia ao menos ter tentado perceber por que razão Carlos Magno, “devoto defensor e humilde servo da Santa Igreja”, usou no século IX como símbolo do seu poder sobre a Terra, um globo esférico encimado por uma cruz.

imagem: Ilustração de Carlos Magno datada de cerca de 1450 (Imagno/Getty Images)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

CULTURA À ZÉ DO PIPO


Fui a uma festa de verão tão ao gosto da época. A abrir o espectáculo, o rancho de Alvorninha mostrou-nos o que se entendia, nos idos do século de Eça e Camilo, por cultura popular: Da bruteza do trabalho do campo, só aligeirado pela elevação do espírito ao som das “ave marias” na torre da Igreja, saía a elegância, a sensibilidade e a sensualidade do movimento dos corpos na dança a despertar o erotismo de uma castidade que precisava de pau-de-cabeleira para a guardar. A música descia dos salões ao arraial, que o povo até dançava mazurkas polacas trazidas a par das baionetas dos soldados de Napoleão que sonhou uma Europa debaixo da sua garra: dançava-se a mazurka de Cabo Verde aos Urais.
Terminada a preleção de um tempo perdido a deixar saudades, eis que do microfone sai a voz do inenarrável “enche chouriços” que a Câmara das Caldas tem para estas ocasiões, anunciando um ícone da atual “cultura popular” que canta, no dizer do apresentador, com alegria porque para tristezas já basta (toda a gente sabe a tristeza que causam um Bach, um Tavares Belo, ou uma mazurka trazida pela guerra…). Depois de tecer loas aos eleitos que governam a cidade e que jantavam ali mesmo, lembrou ao povo a sorte que tinham por tais políticos que assim alargaram os cordões à bolsa para dar tal bodo aos pobres, e rematou prometendo surpresas deliciosas relacionadas com o desapertar da braguilha das calças de um locutor da rádio local. E as luzes prepararam-se para a entrada de Zé do Pipo (o tal ícone), que irrompe no palco com as suas meninas, atrasado em relação ao anúncio do apresentador resultando numa apoteose pífia perante o delírio basbaque de um povo que já se esqueceu de cantar e dançar porque agora só vai a “concertos”, e por isso se julga mais culto que os avós. Do que se prometia nada se cumpriu: nem cultura nem alegria. Não houve erotismo, mas falta de sensualidade, a elegância tropeçou na parafernália acústica e luminosa, e a graça rimou com desgraça. A música foi indigente, sem a qualidade da antiga música popular, a ritmar uma dança pouco casta que nem para pornografia serve. Chunga é o adjetivo certo para esta “cultura” (não cheguei a ver aquela coisa da braguilha, o que me prejudica a formação cultural). Ao contrário do que tinha dito o locutor de serviço que prometeu cultura e alegria, foi toda uma tristeza que me causou profunda depressão. A quem mando a conta da fluoxetina? Apetece dizer: Puta que pariu esta “cultura popular”!

sábado, 28 de julho de 2018

A BELEZA DE UM VEREADOR

Ricardo Robles é um homem bonito. Com nome a lembrar heróis da guerra de África. E é do Bloco. Uma fofura. Talvez seja o que explica as dolorosas cenas que no espaço de um dia fui obrigado a assistir: dirigentes femininas do Bloco e uma escritora, inflamando-se a defendê-lo do ataque insano dos jornalistas de economia que, como todos sabem, são de direita.
A nenhuma vi explicar ao moço a catequese que se ensina nos acampamentos de verão do Bloco: “Direito à boémia: Necessidade de vida noturna para produção e radicalização cultural“; “Desobediência Civil”; e a mais interessante: “A propriedade é o roubo: socialização dos meios de produção”.
A nenhuma delas vi perguntar ao moço de belos olhos por que razão, sendo na altura deputado municipal por Lisboa, não arengou na sessão contra o esbulho do património imobiliário do Estado que só estando nas mãos do Estado pode escapar à lógica da especulação imobiliária, porque é imoral e injusta, opiniões que partilho com o Bloco, ou não levou à letra os ensinamentos do Bloco e não acampou às portas da Segurança Social com um grupo de escuteiros do último acampamento bloquista para impedir a agora famosa hasta pública, em treino de desobediência civil. Em vez disso comprou por tuta e meia aquilo que já se sabia valer um dinheirão.
Agora, depois de gastar quase um milhão, só lhe restam três coisas: Vender pelo valor do mercado e ficar milionário e sem alma; vender a um preço justo que lhe devolva o investimento gasto e um lucro moralmente legítimo mas deixar que outros depois vendam por cinco vezes mais, ficando com cara de totó; ou arrendar àqueles que sempre habitaram Alfama, que são a sua alma, e que construíram ao longo dos séculos a sua fama e peculiaridade que agora atrai gulosos especuladores. Ao fazê-lo, arrendar a preços populares, fará o que durante muito tempo algumas famílias fizeram: empatar capital e esperar pelo seu retorno durante anos. Coisa que nunca veio porque Salazar manteve as rendas congeladas pela 1ª república (Salazar não alinhava com a especulação, tal como o Bloco).
Eu, que ao contrário das moças do Bloco e escritoras românticas não me comovo com os belos olhos do senhor vereador, deixo-lhe uma ideia, já que os problemas familiares o impedem de empatar capital. Venda! Para não cair na teia da especulação, arranje uma cooperativa que lhe devolva o dinheiro gasto e mais um apartamento e mais outro para a mana, e venda o resto a preços justos para famílias com filhos (quero ver Alfama cheia do chilrear de garotos a pedir tostões pelo Santo António), com uma cláusula no contrato que impeça a venda especulativa pelo menos por vinte anos. Com certeza haverá advogados no bloco que lhe possam explicar como se faz. Talvez o irmão do outro vereador Fernandes que é como a dona Constança: não há festa nem festança que lá não esteja, lhe possa escrever o contrato. E depois vá passear os lindos olhos pelos arraiais para ouvir os pregões que as moças casadoiras lhe irão lançar: “ai que santinho, minha nossa senhora”.

sexta-feira, 9 de março de 2018

AS PONTES DE LISBOA


Agora que dizem que a ponte está tremeliques, vem o PCP a defender uma nova ponte entre o Barreiro e o Beato, e não está sozinho nesta sua defesa. E eu acho que a matemática faz falta ao PCP e aos restantes políticos deste país. Vamos às contas:
Lisboa tinha, em 1981, 807 997 habitantes. Nos últimos censos de 2011, já só tinha 547 733 habitantes. “Desapareceram” 260 264 habitantes, e não foi na guerra do Ultramar. Se em vez de se fazer uma ponte porque não se arranjam formas de fazer “retornar” esses 260 264 habitantes?
Por curiosidade, Sevilha tem 703 206 habitantes.
O Barreiro? Tem 78 764 habitantes. Cabiam ali todos ao Beato, Jerónimo de Sousa. Deixem as pontes em paz.
Istambul tem uma situação geográfica parecida à de Lisboa, com a sua área metropolitana a estender-se entre as duas margens do Bósforo, mas tem 13 vezes mais população que a área metropolitana de Lisboa. Para ser igual a Lisboa em pontes, teria de ter 26, mas só tem 3 (uma a mais de Lisboa), com a terceira novinha a estrear.
Com o retorno dos habitantes a Lisboa, havia imensos ganhos ambientais com a diminuição da emissão de gases de efeito estufa. Com uma ponte nova aumentaria essa emissão, para além da ameaça ambiental sobre o Tejo.
O que é que os “Verdes”, satélite do PCP, têm a dizer, agora que o PAN anda ocupado com o “ambiente” da restauração?

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

QUEREM PERNIL? COMO? SE A NÓS TIRARAM O PASTEL DE BACALHAU, O PRESUNTO DE CHAVES E O ARROZ DOCE?!

Se pensavam que a história do pernil é um fait divers, desenganem-se. Aquilo ainda mete Sócrates, Mário Lino (o do jámé), e uma dívida de 40 milhões de euros. Não é um fait divers, mas um thriller digno de uma série da BBC, só estragada porque o ministro Augusto Santos Silva, em vez de chamar o embaixador da revolução bolivariana, veio confessar, envergonhado, que o governo não tem o poder de sabotar o pernil (não há nada mais deprimente do que um ministro a confessar a falta de poder de um governo), limitando-se à sabotagem do pastel de bacalhau, do presunto de Chaves e do arroz doce. De thriller passou a ópera bufa.
 Os venezuelanos e Simon Bolívar mereciam mais respeito, que para os portugueses bacalhau basta, desde que não sejam pastelinhos do dito, proibidos nos bares dos hospitais (ah, pois foi!). De cartola enfiada na cabeça vamos todos saudar a chegada do Novo Ano esperando que cheguem à boca de cena o Dr. Malatesta, Aka Jerónimo de Sousa, e a sua irmã Norina, Aka Catarina Martins, para cantarem a Internacional em defesa do pernil do Maduro, já que ninguém defende o pastel de bacalhau, o presunto e o arroz doce.

domingo, 17 de dezembro de 2017

OS BRINCOS DE NOSSA SENHORA


Na magnífica e bela igreja de S. Pedro em Peniche fizeram um presépio, mimoso e ingénuo, como devem ser os presépios, e onde os anjinhos aparecem com a foto do rosto dos meninos que o fizeram. Está lindo, mas causou algum “escândalo”. É claro que a palavra é exagerada, e se a utilizo é porque me lembrei das aventuras dos três mosqueteiros e do D’Artagnan que tinham por missão fazer com que a rainha de França aparecesse no baile com as jóias que imprudentemente tinha oferecido a um amigo. Se na corte francesa o facto de a rainha aparecer sem as jóias era um escândalo, num presépio, Nossa Senhora aparecer de brincos e colar causou, se não escândalo, desagrado de algumas senhoras que ali se encontravam para ouvir os coros cantarem loas ao Deus menino e a Nossa Senhora. - Que não, Nossa Senhora não usava brincos e muito menos colares, dizia uma. - Uma modernice, dizia outra, acrescentando que naquele tempo não havia brincos!
Sem querer entrar na polémica que opôs Manuel de Oliveira a Agustina Bessa Luís, sobre a riqueza de Nossa Senhora, tendo Agustina, mulher de luxos e bom gosto, a defender que sim, Nossa Senhora era rica e demonstrava-o, sempre vou afirmando às amáveis senhoras que estranharam os brincos, que já nos tempos das cavernas, as mulheres, e os homens, já agora, usavam brincos e colares, pelo que está longe de ser uma modernice. Nossa Senhora, nascida no seio de uma família de judeus, em terra ocupada por romanos, usaria de certeza brincos e colares como as mulheres da sua tribo, do mesmo modo que cobria a cabeça com o véu. De outro modo é que seria estranho.
Para provar o que digo, socorro-me do maravilhoso poema inscrito na Bíblia: O Cântico dos cânticos, escrito quase mil anos antes de Nossa Senhora nascer, e onde os Padres da Igreja vêm na mulher do poema, a alegoria da Igreja, amada por Cristo, e que tem Nossa Senhora como padroeira suprema:
A uma égua entre os carros do Faraó
eu te comparo, ó minha amiga.
Formosas são as tuas faces entre os brincos,
e o teu pescoço com os colares!
Para ti faremos arrecadas de ouro
com incrustações de prata.  (Ct 1, 9-11)

Parabéns, pois, a quem fez o presépio da Igreja paroquial de Peniche, enchendo-o com a beleza de Nossa Senhora entre brincos e colares (O José também estava bonito com ar jovem, e o menino com frio só de cueirinhos vestido).

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

O HOMEM QUE APALPAVA PRÍNCIPES


Um homem de 48 anos é convidado para um jantar de gala para dar algum lustre artístico ao evento, tipo bobo da corte, porque é actor de Hollywood. Sentam-no ao lado do marido da princesa, genro do rei e dono do palácio onde se dá a festa. O príncipe tem 35 anos, é pai de três filhas, e quase dono da casa para onde o bobo (artista de Hollywood) foi convidado. Este, malandro, convida o “príncipe consorte” para ir até ao terraço fumar um cigarro e, por baixo da mesa, apalpa-lhe as “jóias” de família. O “príncipe”, de casaca vestida onde resplandecem uma série de medalhas não se sabe bem porquê, é homem feito e em posição hierárquica e social superior ao do artista. Em vez de uma bofetada com luva branca e um desafio para um duelo para fazer jus às medalhas que lhe pendem do peito, espera 10 anos para revelar o abuso, sem revelar quanto tempo deixou que o bobo mantivesse a mão nas “jóias”, nem se o chegou a acompanhar até à varanda para um cigarro (one after??!!), revelando unicamente, que afinal o bobo é ele!
De forma estaliniana, apagaram o bobo dos filmes, (consta que se segue Tchaikovsky, irmãos Grimm, Perrault e um tal italiano, Giambattista Basile, soldado da república de Veneza, só porque todos deram voz a um príncipe que não se deixava apalpar mas aproveitava-se de meninas virgens adormecidas, para as beijar e depois fazê-las princesas). É o que acontece quando se confunde o homem com o artista, numa Hollywood convertida aos bons costumes. Kevin Spacey (é ele o bobo) tem um pecado: só saiu do armário depois de denunciado. O lobby não perdoa…
Eu, que fico sempre perturbado quando o José Rodrigues dos Santos me pisca o olho do lado de lá do écran, acho mas é que o Spacey é um granda maluco, e os principezinhos não gostam de malucos! (acham que vale a pena queixar-me do JRS?)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

PORTUGAL, CATALUNHA, É TUDO COLÓNIAS, PÁ


O condado Portucalense era um condado que a Norte ora acabava no Lima, ora no Minho, e a Sul, ora no Douro, ora no Mondego. Conforme as birras dos mouros ou dos galegos. E não, Guimarães não tinha nada a ver com a Lusitânia, província romana que começava no Douro e ia até ao Algarve, alargando-se a Salamanca e Mérida.
Afonso, um galego afrancesado, depois da secessão do reino de Leão, conquistou as antigas terras da Lusitânia sem qualquer referendo, e os seus filhos continuaram a conquistar terras e só pararam em Timor. Do Mondego até Timor é tudo terra conquistada e colonizada. Isto é, Angola e Moçambique são como a Beira Baixa e o Alentejo…  Tá bem, não é bem igual, a Beira Baixa não tem praia.
Agora estamos só até à Madeira, mas isso não quer dizer que não termine tudo outra vez no Mondego, que a descolonização não foi completa. Lá diz o pessoal do FCP que abaixo do Mondego é tudo mouro. Uns referendos e tal e a coisa compõe-se.
Depois vem o 1640. Ó meus meninos, 1640 é a época em que a Catalunha de repente descobriu que já não queria ser espanhola porque queria ser francesa. Coisa de gente chic que nunca gostou do flamenco. Portugal, já era velhinho. 1640 foi só um golpe de estado em que se tirou um rei e colocou-se outro. Não houve restauração da independência porque esta nunca se perdeu. Havia um rei em Espanha, que era um Filipe com um número, e outro rei em Portugal que por acaso era o mesmo Filipe mas com um número a menos, em letra romana está bem de ver, porque foram os romanos que inventaram os lusitanos que agora se diz serem os antepassados dos portugueses e a gente que sabe que foram os godos, os francos, os mouros e os judeus que andaram pelas beiras, algarves, alentejos, e estremaduras, ri-se e finge que acredita. Os lusitanos ficaram todos em Viseu a fazer rotundas.
Saramago, o segundo nobel português e o oitavo espanhol (evoluíram mais depressa os espanhóis desde os Filipes), dizia que somos todos manos e isto tudo devia era chamar-se Ibéria, que curiosamente vem do nome do rio Iber, o actual Ebro que desagua na Catalunha. Ó diabo, onde é que isto vai dar! Deve ser por isso que agora querem o Ebro e o Tejo como irmãos.
O Saramago é que tinha razão. Juntava-se esta baiana toda. Madrid ficava com os museus, os churros, o chocolate quente e a Pilar del Rio. O poder executivo ia para Bruxelas (é a moda actual e já estamos habituados) que isto do governo quanto mais longe melhor, o legislativo ficava em Lisboa (a ver navios) e o judicial em Barcelona, com os mossos d’ esquadra e os juízes. A língua oficial ficava o inglês que é uma coisa que toda a gente sabe e assim ninguém se chateava. As outras línguas ibéricas ficavam só para as cantigas, porque não fica bem em inglês dizer: “Besame mucho” ou “A casa da mariquinhas tem na sala uma guitarra e janelas com tabuinhas”.
Como chefe de Estado escolhíamos a rainha Letízia, e mandávamos o Marcelo para o Brasil brincar com os netos, o Filipe para a Bélgica (eles têm sempre lugar para reis estrangeiros) e o Pui não sei quê para a Venezuela aprender castelhano e a fazer revoluções bolivarianas.
Só tinha de haver uma condição. Ficava proibido a qualquer governante ter nome de perfume. É que não fica nada bem!

imagem: mapa da península pintado por William Harvey (1868)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

PORQUE ARDEU O PINHAL DE LEIRIA


Foto de Paulo Cunha/Lusa.
Acesso em 16 outubro de 2017.


A culpa dos incêndios dos últimos dias é, por minha convicção, não o posso provar, do ataque premeditado e coordenado que foi feito para a ignição dos fogos, com intuitos a que se pode, e deve, atribuir-se a natureza de terroristas. Já sobre o socorro ou a falta dele haverá por aí muito especialista de bancada que explicará o que sucedeu.
Quando visitamos um ministério somos barrados à porta. Pedem-nos a identificação e os nossos movimentos são vigiados. O pinhal de Leiria é património público, e possuía exemplares únicos e classificados de interesse público, como alguns dos mais altos eucaliptos de Portugal. Não me enganei, escrevi mesmo eucaliptos. Depois de um verão seco e quente, um outono tão quente e tão seco como o verão obrigava a cautelas que não se tomaram. Entre elas a de guardarem o pinhal como fazem aos edifícios ministeriais.
Este é um caso de polícia, ou da falta dela. Os culpados são os terroristas que lhe atearam o fogo e os responsáveis que não conseguiram prever que tal podia acontecer, quando tinham a obrigação de o prever.
Não se vá dizer agora que a culpa do incêndio do pinhal de Leiria é dos eucaliptos que lá estavam. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

O QUE HÁ PARA COMEMORAR A 5 DE OUTUBRO?


Como crente que sou, só Deus e a vida são sagrados. Ideias como nação, pátria, república, monarquia, não têm para mim nada de sagrado. São formas de organização que se querem necessariamente mutáveis conforme os interesses das comunidades que servem. Por isso abomino o nacionalismo, que não resiste ao mais elementar estudo da história ou da genética, ou vénias a republicanos ou monárquicos.
Simpatizante de um regime monárquico vivo muito bem neste regime republicano que considero, atualmente, ser o que melhor serve os interesses da comunidade que habita Portugal. A causa monárquica está cheia de gente a cheirar a naftalina dos baús, pingando anéis brasonados dos dedos e ansiosa pela espinha curvada às vénias. Não é o que ambiciono para o país onde vivo. No entanto, não comemoro o 5 de outubro de 1910 porque não há nele nada que mereça ser comemorado. Nem sequer a implantação de uma república que não se conseguiu implantar, apesar do nome. A 5 de outubro apeou-se um rei e alçou-se um presidente. A res pública passou assim para as mãos das oligarquias económicas ou políticas, com um fantoche a acenar ao povo. Dispensou-se o que em futebol denominamos de árbitro. Foi preciso esperar por Abril de 1974 para que nos meses que se seguiram se conseguisse, efetivamente, implantar um regime verdadeiramente republicano.
A 5 de outubro de 1910 houve em Lisboa um golpe de estado. Alguns gostam de lhe chamar revolução mas o termo escapa ao que efetivamente aconteceu:
Em agosto do mesmo ano de 1910 houve em Portugal eleições legislativas legítimas e democráticas, onde 600 000 eleitores, dos 695 471 inscritos, portanto uma participação de 86.27%, votaram contra os republicanos que obtiveram somente 9% dos votos. A queda da monarquia em Outubro não permitiu que o parlamento legítimo tomasse posse. Em 1911 fizeram-se eleições somente nos círculos eleitorais de Lisboa e em 1915 havia inscritos somente 397 038 eleitores, muito abaixo do universo eleitoral das últimas eleições legislativas do regime monárquico. Eleições legislativas legítimas e democráticas só voltaram a haver em 1976. Houve, portanto, e do ponto de vista etimológico, muito mais república no regime monárquico do que nos 66 anos que se seguiram à implantação dita da república. O que se seguiu foram golpes e contragolpes durante 15 anos e meio que resultaram numa ditadura de 48 anos.
Não há nada para comemorar a propósito do 5 de outubro de 1910.

imagem: "O Peso da História" de Pedro Valdez Cardoso