sábado, 31 de dezembro de 2016

NÃO DESEJO NADA PARA 2017


Não desejo nada para 2017. Lá diz o ditado: não desejes que Deus pode ouvir e fazer-te a vontade.
Para 2016 desejei gigantes na política contra os pigmeus que por lá pululavam. E gigantes tivemos… mas do lado errado. Do lado certo, que é o meu (claro) continuámos com os pigmeus do costume. O país que é (ainda será?) o mais poderoso do mundo escolheu para novo presidente um desenho de cartoon, e o gigante (mau) Putin, que prepara a aliança com o gigante (também mau) Erdogan, acaba de meter na ordem o pigmeu (bom) Obama: um presidente (pigmeu) que se comportou como o príncipe herdeiro de uma monarquia europeia, esquecendo que era o imperador do mundo!
Ouviste, ó Deus? Porta-Te bem para o ano e não oiças os desejos dos homens.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O NATAL E O SEU MARAVILHAMENTO


Na singular conexão entre Isaías 1,3; Habacuc 3,2; Êxodo 25,18-20 e a manjedoura, aparecem os dois animais como representação da humanidade, por si mesma desprovida de compreensão, que, diante do Menino, diante da aparição humilde de Deus no estábulo, chega ao conhecimento e, na pobreza de tal nascimento, recebe a epifania que agora a todos ensina a ver. Bem depressa a iconografia cristã individuou este motivo. Nenhuma representação do presépio prescindirá do boi e do jumento – Joseph Ratzinger/Bento XVI, Jesus de Nazaré: a infância de Jesus, Cascais, Principia, p.62
Há uns natais atrás, escrevi uma crónica brincando com a suposta vontade do Papa Bento XVI em retirar o burro e a vaca do presépio. A pretensa notícia não era mais do que mau jornalismo que cada vez mais vai sendo comum. Para honrar aquele grande Papa, decidi começar por citá-lo, precisamente sobre a representação simbólica daqueles animais no mistério da Natividade.
O Natal é cheio de significado simbólico, onde a tradição religiosa pagã se mistura, com todo o à vontade, à tradição judaico/cristã, como em nenhuma outra festa cristã. O facto deve-se a ter-se feito coincidir a celebração do Natal com as festas do solstício de Inverno, quando acontece a noite mais longa do ano, para depois o Sol começar a subir no horizonte alargando os dias e vencendo as trevas. Surge assim Cristo como alternativa à divindade romana invicti Sollis.
Porque este ano me tornei avô de uma menina maravilhosa, lembrei-me de dar aqui testemunho de uma velha crença de Natal inglesa que a minha avó materna, sul-africana de origem inglesa, nos contava com toda a certeza no olhar, acreditando piamente no que dizia, não titubeando sequer quando a filha, a minha mãe, a confrontava perguntando-lhe se tal tinha visto, uma vez que se criara no campo. A lenda que minha avó nos contava está relatada num livro: The book of Days, de Robert Chambers, que afirma ser uma crença típica da região de Devon e da Cornualha, na Inglaterra.
Contava-nos a avó perante o nosso pasmo admirado e crédulo, que à meia-noite em ponto da véspera de Natal, o gado de todo o mundo se ajoelhava nos estábulos, em louvor do menino que nascera junto deles. Nós, meninos da cidade, mordíamos o lábio perante o sentimento de uma raiva surda, imprópria da época, por não termos a oportunidade de correr a um estábulo para nos maravilhar com o milagre, mesmo sabendo que a meia-noite de serões onde não havia televisão, não eram apropriadas para deslocações fora de casa.
É sempre com grande ternura, lembrando a lenda da avó, que coloco no presépio as figuras da vaca e do burro bem junto do menino, enquanto José e Maria mais afastados tentam perceber o que aqueles animais sem compreensão, tal como as crianças, entenderam tão bem.  

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

RESTAURAÇÃO PRECISA-SE


Quando Marcelo Rebelo de Sousa, presidente eleito da república portuguesa se curvou perante a rainha de Inglaterra, eu não gostei. Sendo eu um grande admirador da pessoa de Elizabete II e que nutro simpatia q.b. pelo regime monárquico, não gostei, no entanto, de ver o representante de uma nação curvar-se perante a representante de outra nação. Pela mesma razão me senti ofendido com a birra malcriada dos deputados do Bloco de Esquerda quando se recusaram conceder um gesto de respeito e consideração pela nação espanhola, convidada da nação portuguesa, nas pessoas dos seus representantes. Que não alinham em poderes baseados no nascimento, disseram, esquecendo que Filipe VI não tem poderes para além da representação de um Povo que o é, tal como o rei, baseado na circunstância do nascimento dos que o constituem.
Os deputados do bloco, cujo lugar na casa de uma república nunca referendada com uma constituição também ela não referendada, lhes foi concedido por 10.18% dos votos expressos, ou sejam, 550 945 votos, esqueceram que o rei de Espanha tem a sua legitimidade de representação (e não de poder) no voto expresso por 88.54% dos eleitores espanhóis que referendaram a constituição que previa o regime monárquico, num total de 15 706 078 votos. Esqueceram, por exemplo, que todos os actos do rei são referendados pelo presidente do governo, ou pelo presidente do congresso ou, imagine-se por um ministro que, ao contrário dos antecedentes, não é eleito. Coisa diferente aconteceu em Cuba que, sendo república, seguiu uma transição de poder de estilo monárquico sem qualquer referendo ou votação e sem que beliscasse o sono dos revolucionários portugueses.
Esqueceram-se assim os deputados do Bloco que somos nação por nascimento daí o simbolismo da figura de um rei. É essa circunstância de nascimento que nos permite votar, ao contrário de um estrangeiro que aqui viva, trabalhe e pague impostos. Foi a circunstância de termos nascido em Portugal que nos faz portugueses e que nos impede de votar para sermos espanhóis, por exemplo, porque tal vontade está proibida pela constituição portuguesa. A nossa vontade de ser ou não desta Nação está vedada. É por isso que hoje comemoramos o 1º de Dezembro, dia da restauração da independência. Porque nascemos em Portugal ou de pai ou mãe portugueses.
O dia da restauração da independência não aconteceu por vontade expressa das populações, mas por vontade de uma elite que pôs no poder o representante dos Braganças, família que D. João II tanto combateu ao ponto de condenar à morte, 150 anos antes, o duque de Bragança do tempo, porque o impedia de prosseguir políticas de engrandecimento da nação e da defesa da população explorada pelos privilégios das elites portuguesas. Talvez por isso, o duque de Bragança feito rei, como modo de redimir os erros dos antepassados, tenha entregue a Nação ao cuidado de Nossa Senhora da Conceição entregando-lhe a coroa de Portugal.
Não faço ideia o que pensam sobre a protecção de Nossa Senhora, os que hoje comemoraram e discursaram no largo dos Restauradores (parece que há por aí uns pândegos que querem que o Papa não venha cá prestar homenagem àquela que é rainha de Portugal por força da circunstância de ter havido o 1º de Dezembro, porque eles não acreditam que, sendo rainha, apareça ao Povo em cima das árvores). Sei, contudo, que um senhor que não conheço, disse no seu discurso que sem o 1º de Dezembro de 1640 não teria havido o 25 de Abril. E eu, lembrando o Tarrafal, a censura e a PIDE, pus-me a pensar com os meus botões que bom seria não ter havido razões para o 25 de Abril.
Assim vai a indigência do pensamento das nossas elites e deputados, o que me leva a desejar uma nova restauração das mentalidades presas aos arquétipos revolucionários de um romantismo serôdio retirado do baú do século XIX.

sábado, 26 de novembro de 2016

O PIOR DOS DITADORES


Morreu o pior dos ditadores. O pior, não porque fosse o mais sanguinário, mas porque foi o que mais defraudou a esperança de liberdade de um Povo.

Quando em 1959, Fidel Castro liderou a justa e necessária revolução com que um Povo humilhado queria construir um mundo novo, tirou do poder um ditador para lá colocar outro: ele próprio.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

sábado, 29 de outubro de 2016

O COMBOIO, UMA EFEMÉRIDE MEDÍOCRE



Quando era miúdo vi um filme com o António Calvário e a Madalena Iglésias que se chamava “Sarilho de Fraldas”. Já o Charlot tinha filmado estonteantes perseguições policiais, quando neste filme da década de 60, o polícia encarregado da perseguição ao fugitivo, que se escondera algures nas serras de Portugal, diz para o colega, na calma de um gabinete lisboeta e com um ar de extrema eficiência e determinação: - Ainda esta noite estarei no Carregado! Deixando o colega e os espectadores, atordoados pela velocidade vertiginosa e perigosa que o policial precisaria para chegar de Lisboa ao Carregado a tempo da ceia, enquanto o perigoso fugitivo (António Calvário) já se embrenhava por entre o Douro e Minho.
O policial cinematográfico deslocar-se-ia de carro, mas em 1856 poderia ter ido de comboio, pois foi o ano em que se inaugurou a primeira viagem de comboio em Portugal. Bastante atrasada em relação ao resto da Europa, atraso a que o Marquês de Pombal, já morto e enterrado há 74 anos, foi, de certo modo, responsável (um dia explico porquê). O Carregado é assim a fronteira simbólica da interioridade portuguesa (e da sua mediocridade).
A construção da via férrea entre Lisboa e o Carregado durou três anos, a uma média de 12 km por ano, e terminou 11 anos depois de se ter decidido contruir a via férrea. Por que razão se escolheu Lisboa e o Carregado é algo para mim incompreensível. Antes do comboio, as mercadorias saltavam montes e vales, atascando-se na lama dos caminhos, para chegar ao Carregado onde depois embarcavam e desciam suave e seguramente o Tejo até Lisboa. Depois da inauguração do comboio as mercadorias continuaram a saltar montes e valas e a atascarem-se na lama dos caminhos para chegar ao Carregado para depois descerem até Lisboa aos solavancos, poluindo a zona ribeirinha com o fumo do carvão que substituía o vento nas velas dos barcos do Tejo. A linha férrea deveria ter começado sempre pelo Norte (Porto, estou contigo, mas é só desta vez). Na moderna Inglaterra foi por Manchester e Liverpool que começou e não por Londres.
No dia 26 de outubro de 1856, faz agora 160 anos, a viagem de 36.5 km entre Lisboa e o Carregado durou 40 minutos a uma estonteante velocidade de 54 km/hora. A volta foi mais complicada, tendo que se fazer em duas viagens porque as locomotivas envolvidas no processo recusaram-se a arrastar tanta gente depois de um lauto banquete que correu muito bem, como nestas coisas sucede sempre (correrem muito bem os banquetes). Pela noitinha, já burgueses e realeza descansavam em suas casas de toda a excitação provocada pela incursão “ao interior” do país. A história não relata se houve ou não ataques de índios ferozes e ululantes, ou de negros liderados pelo régulo Mawewe, tio do Gungunhana, mas creio que não, que a população da beira rio é pacífica por natureza.
Na Rússia, um país bastante atrasado em relação à Alemanha e Inglaterra, há muito que se viajava de comboio, e cinco anos antes da viagem ao Carregado, já se podia percorrer por caminho de ferro os 713 km que separam Moscovo de San Petersburgo, distância maior que a que separa a ria Formosa do rio Minho.
Não me apetece nada comemorar uma efeméride que denuncia a estupidez de tantas decisões tomadas em gabinetes onde despontam carreiristas que não vêm além do seu ventre, desde o tempo do Fontes até aos dias de hoje, com honrosa excepção para o mesmo Fontes. Se duvida, leia os últimos episódios sobre este país de licenciados (e a-mestrados), a substituir os bacharéis do Eça. Um deles tinha motorista para o levar diariamente, não ao Carregado, mas a S. Martinho do Porto, onde o comboio para mesmo na praia.
Não comemoro a efeméride porque duvido que consiga chegar a tempo ao Carregado!

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA, QUE HORROR!


Vai por aí um charivari por causa da atribuição do prémio Nobel da literatura a Bob Dylan, um escritor de canções populares. Uns porque não reconhecem qualquer valor literário ao cantor, outros porque, gostando muito do cantor, não acham que a sua categoria se encaixe em literatura, como se a Academia Sueca se tenha preocupado com a Literatura quando atribuiu o prémio a um historiador, Theodor Mommsen, já em 1902, só porque o homem escreveu a monumental História de Roma, ou a Winston Churchill por causa das suas memórias da 2ª Guerra Mundial.
Julgo que qualquer das facções, os que estão a favor e os que estão contra, estão pelo menos de acordo quando ambos erram na sua apreciação: os que estão contra porque Dylan é um “marginal”, e os que estão a favor porque precisamente acham que Dylan é um “marginal” e, por isso, uma pedrada no charco.
Dos grandes escritores, desde a antiguidade, é conhecida a sua propensão para a marginalidade. Bob Dylan ao pé de alguns dos maiores é um menino bem-comportado. Verlaine, Baudelaire e Rimbaud são grandes nomes da literatura francesa e não vos conto aqui os pormenores das suas vidas porque este é um blog decente e tenho propensão a corar. Dylan fumou umas coisas? O Camilo Pessanha, um dos nossos maiores poetas que viveu quando muitos de nós não éramos nascidos, morreu de uma overdose de ópio. Allan Poe, Baudelaire, fumavam e tomavam coisas que não lembram ao diabo. Nenhum dos que agora se insurgem contra a atribuição do prémio a Dylan se atreveria a convidar para almoçar (já nem digo jantar) o nosso poeta Bocage, o maior da língua portuguesa depois de Camões, estando presentes a esposa e as filhas. Já a presença de Dylan ao jantar despertaria a curiosidade e a intromissão das vizinhas a pedir autógrafos e nenhuma mancha cairia sobre a honra da casa. Pelo que faz muito bem a Academia em não se ralar com a maior ou menor marginalidade dos premiados. O prémio é pelo valor poético e não pelos cabelos compridos e o olhar de bêbado.
Vamos lá a ver. A cultura a ser premiada deve ser a forma erudita de produzir arte. Ora não é por Dylan cantar os seus poemas de uma forma popular que estes perdem o seu valor erudito. Amália cantou na forma popular do fado a erudição de Camões. A música de Dylan enquadra-se na arte popular e não erudita, mas os seus poemas, não tenho dúvidas, são fruto de uma erudição que demonstram conhecimento das estéticas artísticas da cultura dita não popular.
A poesia do rei David expressa-se nos belíssimos salmos, expressão literária do mais fino recorte que se pode ler na Bíblia. Eram todos cantados pelo próprio David que, ao que consta, não frequentou o conservatório (e já agora, um grande marginal que dançava nu pelas ruas). Os poemas de Dylan seguem assim o longo caminho trilhado desde a antiguidade, de cantar letras eruditas nas formas musicais populares. Foi assim com toda a trovadoresca provençal que nos deu as nossas cantigas de amigo e de amor e as cantigas de Santa Maria de Afonso X. Formas literárias eruditas cantadas em estrofes que vinham da tradição popular: a génese da nossa literatura são as cantigas. O primeiro registo literário da nossa língua é a cantiga de Paio Soares de Taveirós, chamada a “cantiga da Ribeirinha”, dedicada a uma cortesã (forma simpática de chamar prostituta), concubina do rei Sancho I.
O que interessa mesmo é saber se as “letras” do Dylan são ou não literatura, superior à História de Roma ou às biografias do Churchill. O melhor é lê-las e, para os mais sensíveis, esqueçam lá a gaita e a voz rouca e lembrem-se de que não é a primeira vez que um músico ganha o Nobel da Literatura (já aconteceu em 1913):

SAD EYED LADY OF THE LOWLANDS

With your mercury mouth in the missionary times,
And your eyes like smoke and your prayers like rhymes,
And your silver cross, and your voice like chimes,
Oh, do they think could bury you?
With your pockets well protected at last,
And your streetcar visions which you place on the grass,
And your flesh like silk, and your face like glass,
Who could they get to carry you?

Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I put them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?

With your sheets like metal and your belt like lace,
And your deck of cards missing the jack and the ace,
And your basement clothes and your hollow face,
Who among them can think he could outguess you?
With your silhouette when the sunlight dims
Into your eyes where the moonlight swims,
And your match-book songs and your gypsy hymns,
Who among them would try to impress you?

Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I put them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?

The kings of Tyrus with their convict list
Are waiting in line for their geranium kiss,
And you wouldn't know it would happen like this,
But who among them really wants just to kiss you?
With your childhood flames on your midnight rug,
And your Spanish manners and your mother's drugs,
And your cowboy mouth and your curfew plugs,
Who among them do you think could resist you?

Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I leave them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?

Oh, the farmers and the businessmen, they all did decide
To show you the dead angels that they used to hide.
But why did they pick you to sympathize with their side?
Oh, how could they ever mistake you?
They wished you'd accepted the blame for the farm,
But with the sea at your feet and the phony false alarm,
And with the child of a hoodlum wrapped up in your arms,
How could they ever, ever persuade you?

Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I leave them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?

With your sheet-metal memory of Cannery Row,
And your magazine-husband who one day just had to go,
And your gentleness now, which you just can't help but show,
Who among them do you think would employ you?
Now you stand with your thief, you're on his parole
With your holy medallion which your fingertips fold,
And your saintlike face and your ghostlike soul,
Oh, who among them do you think could destroy you?

Sad-eyed lady of the lowlands,
Where the sad-eyed prophet says that no man comes,
My warehouse eyes, my Arabian drums,
Should I leave them by your gate,
Or, sad-eyed lady, should I wait?