sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

OS MEUS DESEJOS PARA 2016


O meu desejo para o Novo Ano é que apareçam Homens e Mulheres grandes que expulsem os pigmeus amedrontados que, sob a capa de feitos revolucionários e patrioteiros, temem a grandeza da Europa de Carlos Magno e Júlio César. Para que a Europa possa ser, caso contrário transformar-se-á, não num aglomerado de naçõezinhas mas naquilo que já é geograficamente: a extensão da Ásia. Que expulsem os pigmeus que, como recentemente em Espanha, por exemplo, confundem, como bem lembrava Unamuno, patriotismo com nacionalismo, esse mal de gente assustada com o tamanho do Universo, e cospem na língua de Cervantes que ilumina o Novo Mundo do outro lado do Atlântico. Ou os pigmeus que à sombra de Joana d’Arc “revolvem” o túmulo de Vítor Hugo (a gigante Joana d’Arc sempre teve a sina de acompanhar com pigmeus desde os tempos do seu camarada de armas, o infame Gilles de Rais). Que expulsem aqueles pigmeus que não são dignos de serem pisados, sequer, pelos cascos do cavalo Buraq que transportava o Profeta (será talvez por isso que o cavalo voava), e que impedem que um dia a fronteira da Europa possa passar do Mediterrâneo para o Saara, para que nas suas praias só se vejam crianças construindo castelos de areia.

Os meus desejos são difíceis de concretizar: neste mês de Janeiro temos concurso de pigmeus…!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O BORDEL EM QUE ISTO SE TORNOU


São os centauros figuras mitológicas que se dividem por duas famílias: os que são brutos e insensatos e os que, ao contrário, são bondosos e guerreiam pelas justas causas. De qual destas famílias saiu o que representa o Banif é coisa que o leitor terá de julgar, por si, sem ligar ao burburinho das virgens ofendidas que por aí vai, fazendo lembrar aquele ditado português: chegou a honra à casa das pxxxs.
Na história do Banif cozinham-se, mais uma vez, os negócios com a política. No caldeirão aparece a Guiné Conacri que é parceira de Portugal na comunidade CPLP. Luís Amado é o presidente do Conselho de Administração e, na altura, não viu motivos para a resistência da entrada daquele país na comunidade da nossa língua e nem no Banif. Antes que comecem a inventar bodes expiatórios, lembro que Luís Amado foi ministro da defesa e dos negócios estrangeiros de Sócrates, que negociou com Khadafi e que fez o frete de assistir em Trípoli à festa que este ditador fez na Líbia para comemorar a sua revolução, e onde não faltou a Força Aérea portuguesa para abrilhantar. Dois anos depois a Europa e Portugal festejavam a morte do desgraçado. Longe vai o tempo em que os homens de Estado falavam de honra pelo mérito da acção, como no episódio final da Batalha do Salado que também mete mouros, portugueses e castelhanos que, como os centauros, também são matadores de touros.
Por uma última vez os mouros invadiam e atacavam a Espanha. O rei espanhol chamou em seu socorro o sogro, Afonso IV de Portugal. O rei português não se dava com o genro que lhe maltratava a filha, mas em nome dos valores que urgia defender foi em auxílio do rei espanhol tendo as tropas portuguesas sido decisivas para a vitória desta aliança ibérica. Estas empreitadas custavam (e custam) muito dinheiro e a forma de as pagar vinha do espólio rico que os derrotados deixavam no campo de batalha, uma vez que naquele tempo ninguém se apresentava diante da vida e da morte de camuflado, mas vestido com as melhores grifes e jóias. Afonso XI, humilhado pela ajuda decisiva do sogro, foi generoso e ofereceu a Portugal a primeira escolha, em qualidade e em quantidade, do espólio riquíssimo do campo de batalha. Afonso IV, orgulhoso, recusou. Instado, acedeu a ficar com uma simples mas luxuosa cimitarra e com o sobrinho do rei mouro (prisioneiro de alto valor de troca).
Isto foi no tempo em que Portugal era “mulher honrada” e a palavra pública adjectivava a res publica não se transformando como hoje em substantivo sem carácter. Como disse Rodrigo Moita de Deus, falando destas coisas num programa televisivo, hoje somos como prostitutas a quem o cliente nem se dá ao trabalho de pagar.
O favor com que mais se acende o engenho
Não nos dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

In Lusíadas (canto X – 146), Camões

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

CRÓNICAS GASTRONÓMICAS IX - LENTILHAS ou o conflito do Médio Oriente explicado à mesa!

LENTILHAS, ou o Conflito do Médio Oriente explicado à mesa!


          Em época natalícia fica sempre bem falar de comida. De comida e de história ou estórias. Para que o Natal chegasse conta-nos o livro do Génesis, o primeiro e mais interessante da Bíblia, as origens da família, tribo e nação de José e Maria. Descontados o Adão, o Noé e todos os patriarcas mais mitológicos, comecemos a história com Abraão que é considerado o pai dos povos. Dos semitas, pelo menos: árabes e judeus. Da história das pessoas faz também parte a história da comida e embora Abraão fosse mais pastor que agricultor, já nesta época e local se consumia a lentilha, uma das primeiras leguminosas a serem “domesticadas” no Médio Oriente. Mas, como todas as histórias, convém começar do princípio.
Teve Abraão dois filhos (que se soubesse), e por esta ordem: Ismael e Isaac. Ismael era filho de uma escrava e Isaac da legítima que também era meia-irmã do marido (razão tinha o Saramago que a Bíblia não é livro recomendável). Zangaram-se as mulheres e Abraão viu-se obrigado a expulsar Ismael e sua mãe para o deserto. Ficou Isaac que casou, já homem feito, com Rebeca que teve gémeos. Logo no ventre da mãe as crianças se agitavam uma contra a outra prenunciando o que por aí vinha. Esaú nasceu primeiro e logo a seguir Jacob que segurava com força os calcanhares do irmão. Esaú era ruivo, peludo e muito macho, passando o dia em caçadas: era o preferido do pai. Jacob era tranquilo e efeminado preferindo a companhia das mulheres, tendo ganho o favor da mãe. Nas tendas do mulherio aprendeu a cozinhar, e ganharia duas estrelas Michelin se elas já tivessem sido inventadas à época.
Um dia regressava de uma caçada, Esaú, o primogénito, cansado e cheio de fome. Ao passar junto à tenda do irmão, inebriou-se com o cheiro do guisado de lentilhas que Jacob, de malícia, preparava sabendo que o irmão não resistiria. Pediu Esaú de comer a Jacob e este que sim, mas primeiro que lhe vendesse o direito de primogenitura. A fome é má conselheira, já se sabe, e Esaú vendeu por um prato de lentilhas a herança de seu pai (diz o texto sagrado, que ainda se acrescentou um bocado de pão…). A história teve mais desenvolvimentos com um gostoso ensopado de cabrito pelo meio, feito ainda por Jacob, dessa vez para enganar o pai Isaac. No fim Esaú viu-se forçado a abandonar a tribo e buscar refúgio junto dos filhos do tio Ismael que fora expulso para o deserto como eu já tinha contado. Por lá casou e fundou a nação árabe, enquanto Jacob fundava a nação judaica. E cá estão as lentilhas como culpadas do conflito que ainda hoje grassa naquela parte do mundo.
São as lentilhas muito importantes e saudáveis (embora por causa delas tenha morrido muita gente). Podem ser escuras, verdes ou alaranjadas. Na Bíblia, Esaú chama ao guisado do irmão, guisado vermelho, pelo que Jacob deve ter preferido as avermelhadas, não por questões ideológicas mas por serem mais sedutoras, digo eu.
As lentilhas não precisam de ser demolhadas. Lavam-se bem e num crivo escolhem-se e limpam-se de impurezas e pedras. Cozem-se no dobro da água, escorrem-se e depois é usá-las como em qualquer guisado de feijão, ou na sopa. Caprichem no refogado de cebola e alho, especiarias, sal e pimenta, cenoura, tomate, etc. Podem pôr chouriço mas não digam nada a judeus nem a árabes, que ao menos nisso estão de acordo em serem do contra. Coloquem o vosso esforço e toda a alma de forma a comprarem, senão um reino, o coração de quem vai saborear as lentilhas. No Brasil, Chile e Venezuela comem-se na Véspera de Ano Novo porque acreditam que traz fortuna!
Bom apetite e ofereçam o guisado sem esperar nada em troca. Lembrem-se que é Natal!

sábado, 12 de dezembro de 2015

SERIA CÓMICO SE NÃO FOSSE TRÁGICO

VIDA SOCIAL
Milionário diz que não violou. Caiu por cima da moça e penetrou-a sem querer. Coisas que acontecem quando os anjos caem. Isto dito no Advento até parece heresia, valha-me Santo Ambrósio!

PRESIDENCIAIS
Candidato do eixo linha de Cascais/Suíça, passando pelo Campo Grande, fala com ternura do Minho que lhe corre nas veias e que ele, nas férias, contemplava das janelas do solar da família, enquanto crê que a Educação é o motor da Liberdade. Que no século XX o país com as elites mais cultas e educadas da Europa tenha, in null komma nichts, mandado às malvas a Liberdade, não parece preocupar o culto e educado candidato dos Suevos. Entretanto o inventor da Vichyssoise ganha terreno entre gente inculta e mal-educada por excesso de televisão. Belém continua a ser uma miragem para as mulheres!

ADVENTO
Estamos naquela época onde Amor tropeça nas escadas rolantes dos centros comerciais. É o Inverno que começa, a luz que volta, a família que se junta, as prendas. Mas há ainda uns patuscos que teimosamente comemoram o nascimento de um menino nas palhinhas de uma manjedoura! Nada que preocupe uma Europa que se descristianiza convencida que assim se torna na utopia do Imagine do Lennon, só para descobrir, pasmada, que o Tau pagão e depois cristão facilmente se substitui pela meia-lua. O Povo nunca dispensou os símbolos que os intelectuais, cegos pelo encandeamento das suas luzes, julgam desnecessários.

EFEMÉRIDE
Hoje faz anos o Frank Sinatra. Cem anos. Ainda bem que nasceu.


sábado, 28 de novembro de 2015

A COR DO GOVERNO


     Preocupar-se alguém com a cor dos ministros, seja para o acinte disfarçado de coolness, seja para a defesa das minorias com tiques de movimento nacional feminino, traz-me à memória aquele sketch da televisão inglesa em que um gay exuberante grita aos quatro ventos a sua condição de “único gay da aldeia”, constantemente desmentido pela realidade. Who cares?
      Vem isto a propósito da nomeação de uma ministra negra, uma ministra cega e um ministro de ascendência cigana. A ministra cega talvez causasse alguma perplexidade, e depois curiosidade, entre a população, pois nunca se “viu”, apesar de a maior obra literária mundial ser de um cego. Quanto ao ministro “cigano” ninguém daria por ele não fosse o caso de gostar de se afirmar como tal, um pouco ao jeito do “gay da aldeia”. A ministra da justiça, ao contrário da personagem da série que citei, é uma mulher circunspecta e pouco dada aos holofotes e às luzes da ribalta. Julgo que ninguém da população pestanejou sequer com a sua nomeação. No entanto, alguns jornais, estrangeiros até, gritaram aos quatro ventos a circunstância de ser negra. Uns exaltando a justiça que foi feita, outros com observações acintosas. O primeiro ministro apanhou por tabela pois a circunstância de ser de origem indiana torna-o num não branco, não se fazendo caso das classificações racialistas do século passado que incluíam os indianos no grupo dos caucasianos. Contra as invectivas insultuosas terçou armas a esquerda bem pensante. Foi pior a emenda que o soneto. Não conheço nada mais insultuoso que a complacência dos bens pensantes (a melhor resposta que vi ao Tintin no Congo não foi a sua proibição, mas um cartoon em que um enorme negro sodomiza o pequeno jornalista. Se fosse eu que mandasse, o Tintin no Congo seria sempre vendido desde que incluísse a oferta daquele cartoon).
       Os negros são de Lisboa muito antes da vinda dos retornados. As confrarias de negros de Lisboa remontam ao século XV. Filipe I de Espanha apreciava ver, do paço da Ribeira, os negros de Lisboa. Gil Vicente tem numa negra talvez a sua mais bem conseguida personagem. Na primeira ópera cantada em português, com o sugestivo nome de “A Vingança da Cigana”, um dos seus personagens é o negro folgazão de nome “Chibante”. A música é de Leal Moreira mas o libreto é de Domingos Caldas Barbosa, um mulato brasileiro filho de um branco de Portugal e de uma negra de Angola. E é este mulato que escreve um texto gozando o sotaque do negro da Guiné. Tudo isto no século XVIII entre os frequentadores de São Carlos, o sítio mais “branco” da cidade, e onde um século depois as damas lisboetas suspiravam pelo príncipe Godide, filho de Ngungunhane, que traz ainda descendência pelos Açores.
      O maior vulto das letras portuguesas do século XVII é um mulato, bisneto de uma negra: o padre António Vieira. O marquês de Pombal era neto de uma índia e a família real portuguesa descende do profeta Maomé e de judeus. Não é de origem etíope porque se gorou o plano de fazer casar D. Manuel I com uma princesa do reino do Prestes João. Podia afirmar, sem engano, que todos os lisboetas são mulatos, como os mulatos Almada Negreiros, Eusébio, Simone de Oliveira e o Cristiano!

       O escrutínio rigoroso da genealogia mais recente dos nossos ex-ministros evitaria o disparate de frases jornalísticas como: “até agora foram sempre brancos”…! Uma ministra de nome holandês e de cor negra, no governo de um goês, só pode causar espanto, desagrado ou euforia, a quem desconhece a existência de imperadores romanos negros, a história de Portugal ou nunca ouviu falar de Afonso de Albuquerque. Parafraseando Morgan Freeman, digo que a História dos Negros é a História de Portugal.

domingo, 22 de novembro de 2015

INCERTEZAS DE UM PRESIDENTE BIZANTINO

A futilidade de manter um blog activo manifesta-se com toda a crueza em momentos como este. O mundo está em profundo estado de transformação e a sensação de que algo muito importante está a acontecer sem que ainda saibamos o que é e quais as suas consequências, limita-nos a escrita. Não posso, no entanto, deixar de manifestar que, perante a grandiosidade dos acontecimentos recentes, saber quem será o ministro que nos vai cobrar os impostos é-me absolutamente indiferente. Haver alguém em Belém que arrasta em demasia o processo, entre repastos de bananas, parece-me um exercício grotesco de auto glorificação demasiado bizantino para o meu gosto.
No estupor em que fico, agravado pela eliminação do Benfica da Taça, encosto a cabeça à janela para ouvir a música da chuva tarimbolando nas vidraças, e descubro que hoje é o dia de Santa Cecília, padroeira da música. Por isso, à falta de melhor prosa, aqui deixo a belíssima escultura de Stefano Maderno que tive ocasião de ver, junto ao actual túmulo de Cecília na basílica de seu nome construída sobre a sua casa no bairro romano de Trastevere. A escultura representa a forma como o seu corpo incorrupto foi encontrado nas catacumbas de São Calisto 1400 anos após a sua morte. Cecília foi martirizada por ser cristã. Depois foi decapitada, “benesse” concedida por ser patrícia romana.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O MINISTRO, DEUS E O DEMÓNIO


Não é segredo para ninguém que Deus nem sempre é nosso amigo. A prova está no ministro Calvão da Silva que o afirmou, ali frente às câmaras da TV. Homem culto (é professor catedrático da Universidade de Coimbra), leu certamente o extraordinário livro de Job onde se conta que Deus autorizou o Demónio a atormentar o pobre Job que, fiel e cumpridor, nada fizera para desmerecer a amizade divina. Ora se Deus permitiu que o Demónio atormentasse a paciência do pobre e bondoso Job porque não haveria de permitir que todo o exército demoníaco fosse atormentar os pobres algarvios que à revelia de todo o bom senso destruíram a criação de Deus para recriarem um purgatório turístico? Na verdade, Deus permitiu que o Demónio abrisse as torneiras do Céu mas convenhamos que a culpa da inundação é todinha humana, isto se considerarmos humanos, os decisores políticos que permitiram a destruição de uma zona que era da ribeira e, por assim dizer, criação divina.
Isto de Deus andar mancomunado com o Demónio para nos atormentar teve o lindo resultado de vir agora o ministro aconselhar à feitura de seguros, que todos sabem ser coisa demoníaca, e que não devemos, nós, pobres crentes, confiar na amizade divina, o que para mim soa a blasfémia, para não dizer heresia. A fazer as vontades ao Demónio, não Lhe calhe fazer a vontade a Antero de Quental e autorizar que o Demónio incendeie a Universidade de Coimbra na esperança que assim consiga alumiar alguém, ou pelo menos o ministro que é professor. É que o ministro a gente ainda aguenta porque é por pouco tempo, agora o professor catedrático!? É que nem toda a paciência de Jó!