sábado, 12 de dezembro de 2015

SERIA CÓMICO SE NÃO FOSSE TRÁGICO

VIDA SOCIAL
Milionário diz que não violou. Caiu por cima da moça e penetrou-a sem querer. Coisas que acontecem quando os anjos caem. Isto dito no Advento até parece heresia, valha-me Santo Ambrósio!

PRESIDENCIAIS
Candidato do eixo linha de Cascais/Suíça, passando pelo Campo Grande, fala com ternura do Minho que lhe corre nas veias e que ele, nas férias, contemplava das janelas do solar da família, enquanto crê que a Educação é o motor da Liberdade. Que no século XX o país com as elites mais cultas e educadas da Europa tenha, in null komma nichts, mandado às malvas a Liberdade, não parece preocupar o culto e educado candidato dos Suevos. Entretanto o inventor da Vichyssoise ganha terreno entre gente inculta e mal-educada por excesso de televisão. Belém continua a ser uma miragem para as mulheres!

ADVENTO
Estamos naquela época onde Amor tropeça nas escadas rolantes dos centros comerciais. É o Inverno que começa, a luz que volta, a família que se junta, as prendas. Mas há ainda uns patuscos que teimosamente comemoram o nascimento de um menino nas palhinhas de uma manjedoura! Nada que preocupe uma Europa que se descristianiza convencida que assim se torna na utopia do Imagine do Lennon, só para descobrir, pasmada, que o Tau pagão e depois cristão facilmente se substitui pela meia-lua. O Povo nunca dispensou os símbolos que os intelectuais, cegos pelo encandeamento das suas luzes, julgam desnecessários.

EFEMÉRIDE
Hoje faz anos o Frank Sinatra. Cem anos. Ainda bem que nasceu.


sábado, 28 de novembro de 2015

A COR DO GOVERNO


     Preocupar-se alguém com a cor dos ministros, seja para o acinte disfarçado de coolness, seja para a defesa das minorias com tiques de movimento nacional feminino, traz-me à memória aquele sketch da televisão inglesa em que um gay exuberante grita aos quatro ventos a sua condição de “único gay da aldeia”, constantemente desmentido pela realidade. Who cares?
      Vem isto a propósito da nomeação de uma ministra negra, uma ministra cega e um ministro de ascendência cigana. A ministra cega talvez causasse alguma perplexidade, e depois curiosidade, entre a população, pois nunca se “viu”, apesar de a maior obra literária mundial ser de um cego. Quanto ao ministro “cigano” ninguém daria por ele não fosse o caso de gostar de se afirmar como tal, um pouco ao jeito do “gay da aldeia”. A ministra da justiça, ao contrário da personagem da série que citei, é uma mulher circunspecta e pouco dada aos holofotes e às luzes da ribalta. Julgo que ninguém da população pestanejou sequer com a sua nomeação. No entanto, alguns jornais, estrangeiros até, gritaram aos quatro ventos a circunstância de ser negra. Uns exaltando a justiça que foi feita, outros com observações acintosas. O primeiro ministro apanhou por tabela pois a circunstância de ser de origem indiana torna-o num não branco, não se fazendo caso das classificações racialistas do século passado que incluíam os indianos no grupo dos caucasianos. Contra as invectivas insultuosas terçou armas a esquerda bem pensante. Foi pior a emenda que o soneto. Não conheço nada mais insultuoso que a complacência dos bens pensantes (a melhor resposta que vi ao Tintin no Congo não foi a sua proibição, mas um cartoon em que um enorme negro sodomiza o pequeno jornalista. Se fosse eu que mandasse, o Tintin no Congo seria sempre vendido desde que incluísse a oferta daquele cartoon).
       Os negros são de Lisboa muito antes da vinda dos retornados. As confrarias de negros de Lisboa remontam ao século XV. Filipe I de Espanha apreciava ver, do paço da Ribeira, os negros de Lisboa. Gil Vicente tem numa negra talvez a sua mais bem conseguida personagem. Na primeira ópera cantada em português, com o sugestivo nome de “A Vingança da Cigana”, um dos seus personagens é o negro folgazão de nome “Chibante”. A música é de Leal Moreira mas o libreto é de Domingos Caldas Barbosa, um mulato brasileiro filho de um branco de Portugal e de uma negra de Angola. E é este mulato que escreve um texto gozando o sotaque do negro da Guiné. Tudo isto no século XVIII entre os frequentadores de São Carlos, o sítio mais “branco” da cidade, e onde um século depois as damas lisboetas suspiravam pelo príncipe Godide, filho de Ngungunhane, que traz ainda descendência pelos Açores.
      O maior vulto das letras portuguesas do século XVII é um mulato, bisneto de uma negra: o padre António Vieira. O marquês de Pombal era neto de uma índia e a família real portuguesa descende do profeta Maomé e de judeus. Não é de origem etíope porque se gorou o plano de fazer casar D. Manuel I com uma princesa do reino do Prestes João. Podia afirmar, sem engano, que todos os lisboetas são mulatos, como os mulatos Almada Negreiros, Eusébio, Simone de Oliveira e o Cristiano!

       O escrutínio rigoroso da genealogia mais recente dos nossos ex-ministros evitaria o disparate de frases jornalísticas como: “até agora foram sempre brancos”…! Uma ministra de nome holandês e de cor negra, no governo de um goês, só pode causar espanto, desagrado ou euforia, a quem desconhece a existência de imperadores romanos negros, a história de Portugal ou nunca ouviu falar de Afonso de Albuquerque. Parafraseando Morgan Freeman, digo que a História dos Negros é a História de Portugal.

domingo, 22 de novembro de 2015

INCERTEZAS DE UM PRESIDENTE BIZANTINO

A futilidade de manter um blog activo manifesta-se com toda a crueza em momentos como este. O mundo está em profundo estado de transformação e a sensação de que algo muito importante está a acontecer sem que ainda saibamos o que é e quais as suas consequências, limita-nos a escrita. Não posso, no entanto, deixar de manifestar que, perante a grandiosidade dos acontecimentos recentes, saber quem será o ministro que nos vai cobrar os impostos é-me absolutamente indiferente. Haver alguém em Belém que arrasta em demasia o processo, entre repastos de bananas, parece-me um exercício grotesco de auto glorificação demasiado bizantino para o meu gosto.
No estupor em que fico, agravado pela eliminação do Benfica da Taça, encosto a cabeça à janela para ouvir a música da chuva tarimbolando nas vidraças, e descubro que hoje é o dia de Santa Cecília, padroeira da música. Por isso, à falta de melhor prosa, aqui deixo a belíssima escultura de Stefano Maderno que tive ocasião de ver, junto ao actual túmulo de Cecília na basílica de seu nome construída sobre a sua casa no bairro romano de Trastevere. A escultura representa a forma como o seu corpo incorrupto foi encontrado nas catacumbas de São Calisto 1400 anos após a sua morte. Cecília foi martirizada por ser cristã. Depois foi decapitada, “benesse” concedida por ser patrícia romana.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

O MINISTRO, DEUS E O DEMÓNIO


Não é segredo para ninguém que Deus nem sempre é nosso amigo. A prova está no ministro Calvão da Silva que o afirmou, ali frente às câmaras da TV. Homem culto (é professor catedrático da Universidade de Coimbra), leu certamente o extraordinário livro de Job onde se conta que Deus autorizou o Demónio a atormentar o pobre Job que, fiel e cumpridor, nada fizera para desmerecer a amizade divina. Ora se Deus permitiu que o Demónio atormentasse a paciência do pobre e bondoso Job porque não haveria de permitir que todo o exército demoníaco fosse atormentar os pobres algarvios que à revelia de todo o bom senso destruíram a criação de Deus para recriarem um purgatório turístico? Na verdade, Deus permitiu que o Demónio abrisse as torneiras do Céu mas convenhamos que a culpa da inundação é todinha humana, isto se considerarmos humanos, os decisores políticos que permitiram a destruição de uma zona que era da ribeira e, por assim dizer, criação divina.
Isto de Deus andar mancomunado com o Demónio para nos atormentar teve o lindo resultado de vir agora o ministro aconselhar à feitura de seguros, que todos sabem ser coisa demoníaca, e que não devemos, nós, pobres crentes, confiar na amizade divina, o que para mim soa a blasfémia, para não dizer heresia. A fazer as vontades ao Demónio, não Lhe calhe fazer a vontade a Antero de Quental e autorizar que o Demónio incendeie a Universidade de Coimbra na esperança que assim consiga alumiar alguém, ou pelo menos o ministro que é professor. É que o ministro a gente ainda aguenta porque é por pouco tempo, agora o professor catedrático!? É que nem toda a paciência de Jó!

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

COM O CAIR DA FOLHA, CAI-NOS A FACE


Um jornal foi proibido pelo tribunal de noticiar sobre o processo de um famoso. São coisas que nos aparecem com o cair da folha, que em português se chama outono e que se segue ao verão a que também chamamos estio, enquanto as outras estações continuam, na nossa língua, só com um nome. Em inglês também é assim (nas outras línguas não sei e agora não me interessa). É assim em inglês mas não em relação ao verão, que é só verão, como inverno é só inverno e primavera é só primavera. Já o outono tem, em inglês, dois nomes. Tal como o verão em português. Queda, é o que os ingleses chamam ao outono: Fall, a queda.
Assim os portugueses têm dois nomes para denominar o tempo mais alegre, enquanto os ingleses têm dois nomes para o tempo mais tristonho. E é assim que um povo triste chama duas vezes pelo tempo risonho e um povo cheio de sentido de humor diz que o outono, esse tristonhar do tempo, é a queda!

Ao que o outono nos traz os ingleses chamam censura, nós chamamos-lhe: regular funcionamento da justiça. E assim, com o cair da folha, cai-nos também a face. Deve ser por isso que os ingleses chamam Fall, ao outono!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

ROMA


“Os sentidos do nosso corpo abrem-nos à presença de Deus no instante do mundo”, diz Tolentino Mendonça, e Roma desperta-nos todos e cada um dos sentidos enquanto Deus nos espreita do alto da cúpula que é de Bramante, mas também de Rafael e de Miguel Ângelo.
Em Roma o cheiro do incenso confunde-se com o do prosciutto e do pomodoro, enquanto os sinos harmonizam com o ruído aparentemente caótico do trânsito que não merece um único rasgo de impaciência à matrona que aproveita o semáforo para retocar a maquilhagem que vemos no rosto patrício. Mas é o espírito que transforma a matéria daquela pedra em carne de Proserpina que as mãos rudes de Plutão apertam e apalpam, e é Verão e Primavera, e é Outono e Inverno por causa disso.
Ide ver o pé desnudo de santa Teresa que cupido (e Bernini), disfarçado de anjo, leva ao paroxismo de um êxtase. E que dizer (ousadia de Rubens) de santa Madalena pegando a mão de um Cristo morto. Ressuscitará o Senhor ao ver-lhe o seio desnudo? Heresia?! Heresia seria não ver o céu do panteão e não afagar a pele sensual daquela incrível colunata onde o olhar joga às escondidas com a extravagância de um guarda suíço, ali, onde o Santo Padre canta em latim, enquanto babamos, deliciados, a pizza quente e picante saída do forno.
Se a beleza ordenada do palazzo Farnese nos lembra a sensualidade pecaminosa dos Bórgias, lá está Caravaggio usando a luz que vence as trevas gritando de dentro do barroquismo das igrejas: O que querem? O mundo é carnal, enquanto a cabeça de Golias nas mãos de David acrescenta: e tridimensional!
Afinal o que é Roma?... Apesar da idade das pedras do Palatino, é ainda o adolescente que se oferece com um cesto de fruta.

Imagem: “rapaz com cesto de fruta”, de Caravaggio, galeria Borghese, Roma

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

ANÁLISE PÓS ELEITORAL


            Fica bem nesta altura, e após ter aconselhado os meus leitores a votarem, fazer aqui a análise eleitoral que se impõe.
            Devo dizer que passei mal a noite e estou seriamente preocupado com a minha vista. Preciso de comprar óculos novos, tá visto, mas o certo, certinho, é que não consigo vislumbrar naquela lista enorme que o CNE publicou, o lugar em que o partido em que votei ficou. A Maria não fala nem diz nada mas eu quer me parecer que está com o mesmo problema.
            O Povo, esse, foi sábio: entre uma coligação que prometia austeridade e um PS que austeridade prometia, escolheu quem tinha mais experiência. É avisado, devo dizer. O camarada Jerónimo disse que tinha conseguido derrubar a direita e eu não atino com a matemática nem com a máquina de calcular a tentar perceber onde é que o PCP encaixou os votos que roubou à coligação. Quanto ao bloco já diz o meu paizinho:- Não te metas com as mulheres que elas conseguem tudo o que querem!
            Agora o que me traz mesmo preocupado, muito mesmo, foi a atenção com que o Xico e o Jabir seguiram as projecções e o escrutínio. Já os vejo a conferenciar pelos cantos e receio bem que em breve aparecerá por aí um caderno reivindicativo. Eu até acho que já os ouvi sussurrar que vão pôr o problema ao deputado (o deles, pois está claro!). Mas se eles já põem e dispõem de tudo cá em casa o que mais vamos ter de ceder?
(Eu espero que eles percebam que aquilo que aconteceu no veterinário é irreversível… )