quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

DIA DOS NAMORADOS E AS SOMBRAS DE UM TAL GREY



Se está a pensar celebrar o dia dos namorados com uma ida ao cinema para ver o pastel que se intitula “As cinquenta sombras de Grey” desista. Parece que aquilo não aquece nem arrefece.
Sempre me fez impressão ver gente trocar um bom copo de vinho tinto por um “panaché”. Se compreendíamos a corrida a filmes como a “Piscina”, o “Último Tango em Paris”, ou o Pato com Laranja” pela vergonha de levar a esposa a um antro de filmes pornográficos, nos tempos de hoje, em que podemos vê-los no recato do lar, faz-me confusão que as senhoras corram a ver um filme em que o único mérito é ver o galã mostrar alguns pêlos púbicos e as “nalgas”. A sério. É tudo o que verão no tal filmezinho.
Se acham a actual pornografia mau cinema, porque não experimentam os velhos clássicos de antigamente? “A historia d’O”, “Por detrás da Porta Verde”, “O Diabo em Mrs Jones”, e por aí fora. Pornográficos quanto baste mas muito bem filmados.
Na literatura é o mesmo. Porque ler um mau livro como as sombras do dito cujo, quando se pode ler a bela escrita de Guillaume d’Apolinaire no seu famoso livro “As onze mil varas”? Ou a “Justine” do Marquês de Sade? Ou “Therése, a filósofa” de um anónimo do século XVIII? E se não gostam dos clássicos, leiam “A casa dos Budas Ditosos” do brasileiro João Ubaldo Ribeiro. Tudo muito bem escrito e com sexo a transbordar da contracapa a ponto de fazer corar o jovem Grey.
Mas não há nada melhor do que ser você a fazer a sua própria literatura e o próprio cinema. Em boa companhia, evidentemente. Deixe as sombras de Grey para quem não pode!

Imagem existente em templo indiano

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

SEXO UNIVERSITÁRIO

ou Abelardo e Heloísa revisitados


            Corria o ano de 1958 quando, no estado americano da Virgínia, três agentes da autoridade irromperam no quarto onde dormia um casal de recém-casados. Foram presos e condenados porque a noiva era negra e o noivo branco: Mildred e Richard Loving.
Felizmente hoje já não é possível ser-se preso por casamento, namoro ou sexo interracial. Um homem negro ou branco pode ter relações sexuais, namorar e casar com uma mulher negra ou branca, ou mesmo com outro homem, negro ou branco. Pelo menos no chamado mundo ocidental. Mas desenganem-se os que pensam que podem cantar vitória à liberdade e ao amor livre tão aclamado pelo Maio de 68. É que o mundo dá-se mal com a liberdade e, 56 anos depois do drama de Mildred e Richard, as universidades americanas, e de entre elas a prestigiada Harvard, decidiram proibir os namoros entre funcionários e alunos, todos adultos capazes de votar e serem eleitos.
Pergunto-me como reagirão professores e alunos de Filosofia e Literatura ao lerem as cartas de Abelardo e Heloísa escritas há 860 anos. Pergunto-me porque não se incendiaram já aqueles verdes campus onde a rebeldia devia andar à solta? Como se esqueceram já do famoso slogan de Maio de 68: é proibido proibir?
        Diz o Papa Francisco que não faz mal dar umas palmadas aos filhos. Talvez tenha razão. À força de tanta moleza da mão dos pais, desabituaram-se os jovens à rebeldia que devia ser própria da idade.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O QUE SE APRENDE COM OS GREGOS


Sempre entendi que estudar os gregos era tarefa indispensável a quem quisesse perceber o mundo que nos rodeia. A recente vitória do Syriza veio confirmar a minha tese. A par de Sófocles e de Homero tem a história grega actual muito que nos ensinar. Desde logo a rapidez com que se demite um parlamento e um governo, fazem-se eleições e dá-se posse a um novo governo. Não chegou a perfazer um mês. Se aprendêssemos como se faz, talvez que o caso da Madeira não se arrastasse por três meses como tudo indica que acontecerá.
Outro ensinamento é como acabar com os partidos do arco da governação. Dizem os que não fazem parte do tal arco que a culpa é desses partidos que se substituem uns aos outros na dança dos governos. Não se atrevem a dizer que a culpa é do eleitorado mas é o que lemos nas entrelinhas. Fizessem como o Syriza, isto é, apresentassem ao eleitorado uma vontade firme em querer ser governo e o eleitorado talvez partisse o tal arco como fez na Grécia.
Mas não somos a Grécia. Os partidos de fora do arco da governação preferem a comodidade da oposição e nunca mostraram disposição para serem governo, e o eleitorado sabe-o bem!
Não foi por acaso que Ulisses fundou Lisboa. Só lhe aprendemos as manhas!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

QUE FEVEREIRO SUBSTITUA JANEIRO

Hoje não quero escrever sobre blasfémias, brigas de famosos e muito menos da crise. Quero escrever sobre um miúdo que nasceu nos subúrbios da grande Lisboa e que traz no nome e no dia em que nasceu, o seu destino: Sambé!
Sambé é filho de uma portuguesa e de um guineense. No Centro Comunitário do bairro municipal do Alto da Loba, em Paço de Arcos, perdia-se pelo funaná e pelo kuduro.
Um dia a psicóloga do centro, Maria Rosa, reparou nele. A Câmara, essa instituição tão mal amada pela imprensa, deu-lhe ajuda e a história aconteceu. Vem escrita por aí. Procurem que eu não quero plagiar.
Em Fevereiro seria uma óptima altura para irmos a Londres. A Convent Garden, mas está esgotado. Marcelino Sambé, que tem música no nome e porque nasceu no dia da dança, vai prová-lo no famoso, difícil e virtuoso pas de trois do 1º acto do Lago dos Cisnes da temporada do Royal Ballet. Ali, na elegante sala da Royal Opera House em Covent Garden, mesmo no coração de Londres, com a bilheteira esgotada.

Isso deixa-me assustado. Não por falta de confiança no menino português e guineense, mas pelos Marcelinos Sambés que há por esses bairros da periferia com tão poucas Marias Rosas para os verem.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

NAQUELE TEMPO...

Micro contos II

NAQUELE TEMPO


Quando os netos faziam-lhe a cabeça em água, gritava que eram rabinos e que só sabiam judiar dela.
Quando o marido lhe pedia o almoço resmungava que não era a deusa dos mil braços.
Quando o filho lhe entrou em casa, magro e desmazelado, com a barba por fazer, gritou-lhe: Pareces mesmo um Cristo, c’um raio. Vai cortar essa barba, alma do diabo.
Quando decidiu pôr-se ao caminho para enfrentar a nora, pensava com os seus botões: Se Maomé não vai à montanha, vai a montanha ao Maomé. E quando a encontrou disse-lhe o que o profeta não disse do toucinho!
Quando morreu sufocada com um bocado do chouriço do cozido ninguém estranhou. Foi no tempo longínquo em que os terroristas eram todos católicos ou protestantes e não saíam da Irlanda.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A BLASFÉMIA

 
Fazer-se alguém vingador de Deus e do seu profeta, é menorizar Deus e o seu profeta. É afirmar que Deus é indefeso e incapaz. Ao pé de tamanha grosseria contra Deus e o seu profeta, os cartoonistas não passam de anjinhos de altar.
Não conheço maior blasfémia do que a daqueles que dizem conhecer a vontade de Deus.
 
Imagem: “A última ceia” de Ben Willikens



sábado, 3 de janeiro de 2015

O CHEF

 

Decidi iniciar o ano com uma série de micro-contos, género que pretendo cultivar, se para isso tiver talento. Eis o primeiro:

 
O CHEF

A relação deles tinha altos e baixos. Para a apimentar decidiu frequentar um curso de chef de cozinha, iguais aos que via na televisão. Durou seis meses e custou-lhe um dinheirão, mas aprendeu como ninguém a fazer uma vichyssoise para arrefecer os ânimos e vol au vent para quando o amor se pusesse a flanar. No fim convidou-a para jantar.
        Foi quando ela poisou o garfo e lhe disse, passa-me o sal, que ele percebeu que tudo estava terminado entre eles.