domingo, 16 de julho de 2017

HOMOSSEXUALIDADE, COISA OU ANOMALIA?


Gentil Martins, reputado cirurgião, emitiu uma opinião disparatada, não muito diferente daquela outra de Cunhal quando, referindo-se ao mesmo assunto, disse ser “uma coisa muito triste”, o que ninguém diria quando toda a gente sabe que o petit nom da “coisa” para um, e “anomalia” para outro, é alegria (gay). Que Gentil Martins não tenha tido tempo para uma instrução e cultura mais clássica que lhe evidenciasse a normalidade da “anomalia” percebe-se, já Cunhal, com uma preparação clássica notável, podia ter evitado a tristeza de tamanha falta de conhecimento sobre os alegres prazeres dos deuses.
O que também não se percebe é o ajuntar de lenha para os lados da Gago Coutinho quando toda a gente sabe que os autos de fé se faziam no Rossio ou no Terreiro do Paço.
A opinião, mesmo que disparatada, julgo eu, ainda é livre, e parece-me anómalo alguém andar à escolha de um sambenito para vestir ao gentil médico, quando se sabe que a inquisição já acabou vai para dois séculos, e será difícil encontrar exemplares nos armazéns da baixa, mesmo em época de saldos, e Santa Comba Dão fica fora de mão.


Imagem: bustos do imperador Adriano (um dos melhores que Roma teve) e do seu amante Antinoo a quem Pessoa dedicou um poema em inglês. No insuspeito? museu do Vaticano.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

CÃO DE GUARDA


Después de conocer el Ejército que cuida de Tancos, si el índice Global de Paz 2018 no le da el primer premio a Portugal, será una injusticia de armas tomar.
Javier Martin no El País de 4/07/2017


Na casa da minha infância havia um cão aparentemente dócil. A quem entrasse pelo portão o Piloto lá estava para o receber com meiguice, o pior era sair. O Piloto rodava e rosnava à volta do penetra até que chegasse alguém da casa e ordenasse ao cão que o deixasse sair.
Veio-me à lembrança o cão da minha infância a propósito deste texto do El País sobre o roubo do paiol de Tancos. Deve o Sr. Embaixador informar o diretor daquele prestigiado jornal que é sempre assim em Portugal. O trabalho é sempre bem feito e sem desleixo, que Portugal é um país europeu e, como muito bem dizem, pacífico e sem tiros, que até informa os ladrões através do Diário da República que não devem entrar, nem sair, pelo lado oeste.
Quem fez o trabalho fê-lo limpinho, até com direito a manobras de diversão no dia do assalto (se é que o assalto se deu naquele dia, e se foi tudo roubado de uma só vez, if you know what I mean) e no dia seguinte, quando se pretendeu que havia bandidos a fazer disparos de dentro de uma mata, como se ali houvesse “áreas libertadas” como na guerra colonial.
O que faltou no paiol de Tancos foi um cão igual ao da minha infância, que eles entrar até podiam, qualquer que fosse o ponto cardeal, agora sair é que era mais complicado. Tirem o exemplo do nº 10 de Downing street, que paga a um gato para livrar os ministros ingleses de ratos e ratazanas. Daqui se conclui que a culpa ou é do Diário da República ou dos governos, principalmente do anterior, como disse o camarada Jerónimo, que impuseram ao povo português e às Forças Armadas, a mando dos malandros da União Europeia, restrições que nos deixaram só no osso.
E por falar em osso, se depois de pagos os ordenados não havia dinheiro para a ração, não serviriam os ossos para manterem um cão como o Piloto da minha infância?

quinta-feira, 29 de junho de 2017

UMA QUESTÃO DE PEIDOS



Se estavam à espera que eu viesse para aqui escrever sobre os peidos do Sobral, desenganem-se. Gosto de ouvir o Sobral cantar, mas não estou interessado em tê-lo como amigo, nem pretendo casar com ele, pelo que o seu comportamento e carácter não me interessam, só a voz.
Mas estou interessado em escrever e discutir sobre Focus Group, palavra etimologicamente parecida a uma horda de bárbaros germânicos incendiando Roma, e que é assim um tipo de estudo para saber se os peidos do governo cheiram mal ou nem por isso, e se pegam fogo nas consciências das pessoas, que o governo encomendou para saber se a sua imagem saiu queimada do grande incêndio de Pedrógão Grande.
É que quero, exijo, saber se esses estudos são pagos com o dinheiro dos contribuintes. É que isto de peidos, em a gente se descuidando, borra a pintura.

Imagem: “Banquete de Baltazar” de Rembrandt, inspirado no livro de Daniel 5, 1-6

sábado, 24 de junho de 2017

SÃO JOÃO, O SOLSTÍCIO... E O PRAZER


Há dias ouvi uma explicação muito interessante para a razão de ter a Igreja colado a festa de São João ao Solstício de verão e a festa do Natal ao solstício de Inverno. Já se sabe que ambos os solstícios se celebravam pelo paganismo, e antes do Cristianismo, daí a popularidade destas festas.
O Natal ficou colado ao solstício de Inverno porque era a festa dedicada ao deus Sol Invicto, quando a Luz vence as trevas e o Sol começa a subir no horizonte e os dias a crescer. Ao contrário, o Solstício de Verão marca o momento em que o Sol atinge o seu auge para começar a descer no horizonte e os dias a diminuir, até que chegue, de novo, o Natal.
No extraordinário Evangelho de João (não o Baptista de que se celebra hoje, mas o evangelista), no capítulo 3, versículos 28 e 30, pode ler-se o que João Baptista afirmou: “Eu não sou o Cristo, mas sou o enviado à frente dele… Ele tem de crescer; e, eu, de diminuir”. Por isso o São João calha no solstício de verão para que comece a diminuir, para que depois Cristo possa crescer, quando “nascer” pelo solstício de Inverno.
A sabedoria da Igreja que tão bem sincretizou o mundo antigo com o mundo novo dos valores cristãos, é um exemplo para a nossa modernidade que se passeia na espuma dos dias como se não tivesse memória.
Viva o São João com o seu alho porro fálico (agora é martelinhos), mais a paixão da fogueira noturna, sensualidade e o erotismo que nos distingue dos demais animais, logo acalmada pelo orvalho matinal, simbolizado nas águas das cascatas, a lembrar o final orgástico, para que os casamentos sejam alegres, felizes e fecundos, e prazerosos, já agora!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

PAÍS DE COMEDIANTES


Uma agência europeia procura uma nova cidade para sede que substitua Londres, tornada incapaz devido ao brexit. Itália oferece Milão, uma cidade equidistante dos grandes centros europeus e com dois aeroportos a servi-la. Espanha propõe Barcelona, a cidade ibérica mais próxima do centro da Europa, servida por um importante porto mediterrânico e um aeroporto com 44 milhões de passageiros por ano, o dobro do de Lisboa.
Portugal aventura-se e propõe o melhor que tem em comparação com o que oferece Milão e Barcelona: Lisboa. Os senhores deputados da Nação votam unanimemente e com aclamação a escolha, que acham, e bem, poder ser uma aposta vencedora.
Os mesmos deputados, que aparentemente não conhecem as propostas em que votam, acompanhados por Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, vêm agora para a rua rasgar as vestes porque o Porto, Braga, Coimbra, e até a Guarda podiam cumprir o desiderato se o governo não fosse tão centralizador. Eu pergunto-me porque ficam as Caldas da Rainha de fora? Tem o mais antigo hospital termal do mundo, e isso deveria ser levado em consideração.
Se há alguém com juízo na Europa, não ganharemos o lugar, mas o prémio de país de melhores comediantes ninguém nos tira.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

ESTOU COM O TRUMP. AMBIENTE IS FOR SISSYS


Estou encantando com a clarividência do Trump. Que se lixe o ambiente, a moral e a ética. Tem petróleo e carvão, é só continuar a ganhar dinheiro e isso é que interessa. Make America great again! Voltemos ao tempo dos índios e cowboys.
Os outros que se amanhem a inventar a tecnologia do futuro que permitirá libertar o mundo das fontes fósseis e finitas de energia, e assim liderarem a indústria, e monopolizarem o comércio garantindo a riqueza futura, como a China se prepara para fazer.
- Espera lá? Mas ó Trump, esta coisa do aquecimento global fez com que a indústria se pusesse a caminho na outra direcção. Vais ficar de fora. Vais deixar de vender aos outros os velhos Fords porque depois só vão querer carros elétricos, e quando precisares vais ter de comprar à China. Dahhhh!
- The Chinese are bad, very bad. Covfefe for them!
- Ó Melania, anda cá depressa que o teu homem não se está a sentir muito bem! 

domingo, 28 de maio de 2017

O CHÁ DOS ESPOSOS


A chamada foto das “primeiras damas”, comum em encontros dos e das representantes dos governos, é ridícula e um gasto desnecessário e abusivo do dinheiro dos contribuintes. Tem como única função mostrar aos contribuintes com quem os seus representantes estão autorizados, sem escândalo, a deitarem-se nas suas camas e quem se pode gabar de ter a/o mais dotada/o. Ridículo é o mínimo que se pode dizer. E mais ridículo é quando os/as representantes dos governos se reúnem em cimeira de uma organização de guerra, como a NATO, tornando a foto da representação conjugal numa patética alegoria de Vénus e Marte. Já nos bastava a triste figura de o presidente de uma das grandes repúblicas do planeta se passear pelo Mediterrâneo e Europa acompanhado da esposa deixando o mundo inteiro suspenso de um dar de mãos conjugal.
Seria de esperar que tornando-se o casamento igualmente homossexual e heterossexual, acabassem estas representações das primeiras damas, já que não acabaram quando as mulheres assumiram cargos de poder, mas era pedir demais a quem se esforça, e muito bem, por aproveitar a oportunidade. E assim, a presença de Gauthier Destenay, cônjuge do primeiro ministro luxemburguês, foi notícia de primeira página a propósito da ridícula foto das “primeiras damas”, ganhando pontos para a causa LGBT.
Se a presença de um homem naquela foto foi notícia, também a ausência de outro homem deveria ter sido. É que o marido de Teresa May não esteve presente. Será que Philip contaria anedotas do Churchill sobre os Curdos a Madame Erdogan? Teria o Reino Unido a oportunidade para exercer alguma influência na cabeça dura do Trump, se Melania pudesse sorver o seu chá na companhia de Philip May ocupado a trincar waffles belgas? Será que as negociações sobre o Brexit seriam diferentes se Gauthier e Philip pudessem ter disputado o último chocolate belga do prato?