quarta-feira, 3 de julho de 2013

SALDANHADAS E PORTADAS

 

Os acontecimentos recentes e a dúvida sobre o equilíbrio do governo fizeram-me lembrar o velho Saldanha. É certo que confundir truões com o prestigiado soldado pode parecer, e é concerteza, ofensivo. Por muito que antipatize com a figura do marechal, a sua vida é a melhor prova de que lhe devemos o maior dos respeitos. Aos quinze anos era capitão e aos dezassete, ainda adolescente e comandante de uma companhia, abandonou um exército impedido de dar luta aos franceses, para se aliar às forças rebeldes que se opunham ao invasor. Em bom português, tinha-os no sítio.

As guerras por onde andou, pela Europa e pelo sul da América, os governos que integrou e a diplomacia que fez, levaram-no por vezes a confundir os seus interesses com os da pátria; Fico zangado quando o vejo marchar com jactância frente às Necessidades em clara afronta à rainha D. Maria, e continuo zangado quando o torno a ver, já velho de oitenta anos, a disparar os canhões contra o palácio da Ajuda, partindo os vidros e rachando o estuque dos tectos, pondo em perigo os cristais.

No episódio da Ajuda, perante um D. Luís preocupado com a segurança da baixela do jantar, a rainha D. Maria Pia, uma italiana elegantíssima de língua afiada que numa única noite de baile de máscaras mudou de traje três vezes, olhou de frente o marechal e disse-lhe: - Fosse eu o rei e mandava-o fuzilar. 

Tirando o facto de naquele período, em três anos, ter havido cinco eleições, um golpe de Estado (o do Saldanha) e oito governos, poucas coisas mais se assemelham aos nossos dias. Nos corredores do poder continua a ver-se gente muito mal vestida a soprar a espuma do champanhe, como lamentava o marquês de Fronteira, mas já ninguém arrisca nada. Naquele tempo, homens como Saldanha arriscavam tudo, como ficou bem expresso na tirada mordaz da rainha: tudo e a própria vida.

Hoje são farsantes que nada arriscam porque, como dizia Goethe, já estão mortos.

 
 
Imagem: estátua do Duque de Saldanha tirada daqui: 


5 comentários:

  1. Falta mais gente COM ELES NO SITIO..... um abraço .....continua

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    1. Temos que pôr as mulheres no poder. Um abraço, Hugo.

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  2. Palavra de HONRA se eu fosse mais nova canditatava-me mas não me convidassem para jantares nem para clubes, acho que as moças novas devem ir tirar um estágio na Alemanha ou na Suécia enfim já nada espero a Esperança já é pouca

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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