quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

PELA BRISA DA TARDE...

 

Que tardes aquelas quando soprava a brisa fresca que acalmava o ardor do estio! Nela viajava o odor das laranjas que amadureciam no pomar, e dos pêssegos, e dos ananases…e o Senhor, que passeava no jardim do Éden, fechava os olhos e aspirava, embevecido, deixando que a hera se encaracolasse nos cabelos e o loureiro lhe coroasse a fronte, enquanto a abelha, de estômago cheio do néctar das figueiras, vinha aprender no doce dos seus lábios o fabrico do mel. Então o Senhor, com um gesto largo da divina mão, mansamente a afastava e retomava o passeio.
 
Ao longe, sob a cúpula das glicínias assente nas colunas de ciprestes, templo monóptero de jardim, ouviam-se os anjos tocar, ritmando o passeio. O homem e a mulher “Ouviram, então, a voz do Senhor Deus, que percorria o jardim pela brisa da tarde…(Gn 3,8). Ouviram o Senhor que afinava o rouxinol enquanto desistia da cigarra que, receando desafinar, ronquilhava a mesma estridência sem cessar. Por isso lhe escutaram a voz, se assustaram e se esconderam. E o Senhor, que passeava pela brisa da tarde, franziu o nariz ao cheiro daquele medo.
 
Desde então, desde que o cheiro do medo inundou a brisa que corria no jardim, o homem e a mulher não cessam de tentar recriar a harmonia dos anjos, na esperança que o Senhor volte a passear… pela brisa da tarde.
 


9 comentários:

  1. O meu comentário já te dei mas volto a dizer tão bela a tua meditação acompanhada pela musica tão suave

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    1. Obrigado. A música foi de facto a origem desta reflexão, e a frase do Génesis ajudou. É sempre bom ouvir Deus na brisa da tarde.

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  2. Belíssimo, com o estilo e o nível que já lhe conhecemos. Um orgulho tê-lo por "colega", se assim posso dizer... :)

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  3. Lindo!
    De facto a música á inspiradora!
    Lena Arroz

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    1. Obrigado, Lena. A música de Bach em especial.

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  4. E a fotografia? Onde é o paraíso?
    Ana Margarida Brandão

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  5. Ana, a foto é tirada dos jardins à volta da muralha do Alhambra, com a serra Nevada ao fundo, coberta de neve. Quer o Alhambra, quer o Generalife, são autênticas recreações do Éden.

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    1. Pois claro que são, os árabes sabiam o que faziam! Obrigada pela fotografia, pela música e pelo texto!
      Ana

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