quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

LIÇÕES DE CANTO

 
Durante um jantar em sua casa, Mr. Richard, o pai de Carlos e de Jenny, entre vapores etílicos e tabaqueiros, pede ao amigo, Mr. Brains, que cante. Este acede com gosto.
Passa-se isto no Porto do século XIX, em casa de um rico comerciante inglês ali instalado, como se lê nas páginas do romance de Júlio Diniz, “Uma família inglesa”, que eu tive a sorte de ser obrigado a ler por fazer parte do programa escolar. Júlio Diniz aproveita a deixa do inglês cantor para afirmar que a nossa nação é, de todas, a mais avessa ao canto. Acrescenta ainda que ninguém nos leva a palma à pouca disposição de nos ocuparmos de coisas sérias, o que aumenta mais a estranheza por aquela aversão.
Acontece que Júlio Diniz tem sido ultimamente desmentido. Não que tenhamos tomado o gosto pela ocupação de coisas sérias, mas por termos, de repente, ganhado maior gosto pelo canto.
Para o demonstrar é ver por onde andam os ministros do governo que logo escutaremos uma canção do Zeca. Sempre a mesma, desafinadinha, é certo, mas não se pode pedir muito à nação que tão recentemente tomou o gosto pelo canto: com tempo e insistência, afinaremos!
Não se fala por aí de outra coisa e este gosto repentino talvez seja mais uma prova do aquecimento global, não sei. Fico agora a aguardar que a outra afirmação de Júlio Diniz seja desmentida e passemos a ocupar-nos de coisas sérias.
Entretanto, talvez umas lições de canto…
 


2 comentários:

  1. Já diria o sr. Camilo, empregado de uma das mais antigas fábricas de louça das Caldas, infelizmente já fechada:

    "Quem canta os seus males espanta"

    No caso actual o mal ainda não foi espantado, mas pelo andar da carruagem vamos ter mais uns "boys" no Teatro Nacional na próxima opereta, intitulada "Daqui só saio quando me pagarem a indemnização choruda ou quando me derem um doutoramento honoris causa".

    Valha-nos a senhora dos cacos (ou casos) perdidos.

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    1. Se é para espantar os males, muito teremos de cantar.

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