domingo, 21 de outubro de 2012

AUTOS, GIL VICENTE E NÓS


Passeando pela blogosfera dei com uma adaptação de um pequeno excerto de um auto de Gil Vicente que, de tão actual, me obrigou a saber mais sobre o mesmo. O blog responsável é o “cinco dias” e o blogger António Paço. Prestados deste modo os créditos devidos vamos ao auto.

Gil Vicente escreveu-o para festejar o nascimento de um príncipe, D. Manuel filho de D. João III para cujo nascimento tinha também escrito o famoso “Monólogo do vaqueiro”. Pai e filho tiveram, em vez de fadas madrinhas, o mais lúcido e famoso dramaturgo português. Se lhes serviu de alguma coisa não sei, mas nós ficámos com o olhar crítico e sarcástico do poeta sobre todos nós porque esse olhar continua a fitar-nos para além do tempo. E o que diz sobre nós o poeta no auto que intitulou de Lusitânia?

Aconselho-vos a ler o que diz pois está digitalizado e disponível na net. Adiantarei somente que a 2ª parte relata o casamento da ninfa Lusitânia, filha de uma rainha berbere e de uma criatura marinha, com o cavaleiro grego chamado Portugal. Para estes eventos Lúcifer encarregou duas personagens, Belzebu e Dinato, do relato de tudo quanto vissem. Deixo-vos com um pequeno excerto desse relato escrito ontem, perdão, há 480 anos.

 

Ninguém – Que andas tu hi buscando?

Todo o Mundo – Mil cousas ando a buscar:

                            delas não posso achar,

                            porém ando porfiando,

                            por quão bom é porfiar.

Ninguém – Como hás nome cavaleiro?

Todo o Mundo – Eu hei nome Todo o Mundo,

                           e meu tempo todo inteiro

                           sempre é buscar dinheiro,

                           e sempre nisto me fundo.

Ninguém - Eu hei nome Ninguém,

                 e busco a Consciência.

 

Berzebu - Esta é boa experiência:

                Dinato, escreve isto bem.

Dinato - Que escreverei, companheiro?

Berzebu - Que Ninguém busca consciência,

                e Todo o Mundo dinheiro.

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4 comentários:

  1. Não te enganaste não foi mesmo ontem que ele escreveu

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  2. A louça velha ainda nos ensina cousas melhores que a mais fina loiça contemporanea.

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    1. Na loiça contemporânea já pouca finura existe.

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